Polo Capital compara Hapvida (HAPV3) a um “avião que caiu” e avalia saída da aposta em meio a turbulências no mercado de saúde.
A Hapvida (HAPV3), gigante do setor de planos de saúde, vive um momento delicado no mercado. O que antes era um ativo de primeira linha no crédito privado, hoje se tornou um estudo de caso sobre a rápida inversão da percepção do mercado. A gestora Polo Capital, que detinha posição na empresa, descreve a situação de forma contundente: “o avião que caiu”.
Até meados do ano passado, a Hapvida era vista como um emissor de alta qualidade, capaz de captar volumes expressivos de recursos com taxas de juros baixas. No entanto, um resultado trimestral decepcionante mudou drasticamente esse cenário, levando a uma forte desvalorização das ações e a um aumento significativo no custo da dívida.
A situação se agravou com a queima de caixa após dez trimestres consecutivos de geração de caixa positiva, a perda de clientes e a troca de seu presidente. Esses eventos levaram a ação a despencar 45% em um único pregão, um movimento que, segundo Conrado Rocha, sócio da Polo Capital, é incomum, a menos que haja fraude, o que ele descarta no caso da Hapvida.
A Virada de Percepção do Mercado
A reviravolta na percepção do mercado sobre a Hapvida começou com o resultado do terceiro trimestre. A empresa apresentou um quadro de queima de caixa, algo que não ocorria há dez trimestres, além de registrar perda de clientes e anunciar a substituição de seu presidente. Essa combinação de fatores levou a uma queda abrupta de 45% no valor das ações em um único dia de negociação.
Após o resultado negativo, o presidente da Hapvida deixou o cargo para integrar o conselho, e o diretor financeiro assumiu a liderança. A companhia optou por um período de silêncio com o mercado, de dois a três meses, para realizar uma análise interna profunda. Essa pausa, contudo, aumentou o nervosismo entre os credores, que viam a dívida da empresa, antes negociada a CDI mais 1,30%, subir gradualmente para CDI mais 8%.
Sinais de Alerta e o Caixa da Companhia
Apesar da deterioração dos indicadores financeiros, a Hapvida ainda possui uma folga considerável em sua estrutura de caixa. A empresa tem cerca de R$ 8 bilhões em caixa, sendo R$ 5,5 bilhões de fluxo livre, e apenas R$ 2 bilhões em dívidas com vencimento nos próximos dois anos. Essa liquidez oferece um fôlego para a companhia, evitando pressão imediata para renegociar dívidas ou buscar novos recursos em condições desfavoráveis.
A gestora Squadra, conhecida por sua atuação ativa nas empresas em que investe, tem pressionado por indicações no conselho da Hapvida. Em resposta, a empresa anunciou a contratação de dez novos executivos simultaneamente, incluindo posições chave como diretor financeiro, de relações com investidores e de fusões e aquisições. Esse movimento, incomum pelo volume, gerou novas discussões no mercado.
Monitoramento e Cenários Futuros
A Polo Capital monitora atentamente três sinais que poderiam levar a uma reavaliação de sua posição na Hapvida. O primeiro é a continuidade da perda de clientes, pois isso intensifica a diluição dos custos fixos, deixando hospitais e unidades com ociosidade crescente. O segundo ponto de atenção é uma nova troca na diretoria, que poderia comprometer a memória administrativa e a execução de planos de recuperação.
Por fim, o terceiro sinal de alerta é uma nova sequência de trimestres com queima de caixa. Mesmo com o colchão financeiro atual, isso poderia apertar o cronograma de vencimentos de dívidas. Conrado Rocha, da Polo Capital, ressalta a vigilância constante: “Ninguém dorme bem aqui. Estamos aqui olhando todo dia, falando com a companhia”. A Hapvida, que fatura cerca de R$ 30 bilhões anuais e possui forte atuação no Nordeste, enfrenta concorrência acirrada no Sudeste e busca otimizar sua estrutura com a venda de sua unidade no Sul do país.