O movimento de enfraquecimento do dólar redesenhou fluxos de capital globais e reacendeu o rali dos emergentes, atraindo investidores para mercados antes ofuscados por ativos americanos.
No Brasil, a recomposição de carteiras por parte de estrangeiros empurrou bolsas a altas expressivas, com destaque para o Ibovespa medido em dólares, que lidera ganhos globais no acumulado do ano.
Só em janeiro e início de fevereiro, estrangeiros aportaram R$ 33 bilhões na Bolsa brasileira, “Foi recorde”, afirmou Davi Fontenele, conforme informação divulgada no programa Stock Pickers – Carteiros do Condado.
Fluxos e números que mudam o jogo
Os dados mostram que o fluxo externo foi intenso logo no início do ano, com R$ 33 bilhões entrando na Bolsa brasileira, e trouxe para o radar setores e papéis de alta liquidez.
No mesmo período, gestores locais seguem sofrendo resgates, reflexo da atratividade da renda fixa desde 2022, mesmo após fundos registrarem performances de +30%, +40% e até +50% em 2025.
Entre janeiro e novembro de 2025, gestores brasileiros geraram, em média, +4,4% de alfa, mas no trimestre seguinte tudo mudou, pois de dezembro a fevereiro a média passou a registrar -7% de retorno em excesso, apagando ganhos do ano inteiro.
Por que gestores locais perderam o rali
Consultorias orientaram fundos de pensão e fundações a rebalancear carteiras após as fortes altas, levando a vendas mesmo em mercado positivo, e muitos gestores ficaram subalocados em nomes vencedores.
Na prática, estrangeiros compraram os papéis que gestores brasileiros costumavam carregar pouco ou mesmo carregar vendidos, ampliando a diferença de desempenho entre os dois grupos.
Nos últimos três meses, a Vale, VALE3, disparou mais que o dobro do índice, a Petrobras, PETR4, virou de vilã para destaque, e o Itaú, ITUB4, continuou sua escalada, justamente os nomes com os quais muitos gestores estavam pessimistas, observou Lucas Collazo.
O olhar de Londres e a rotação estrutural
Segundo Gustavo Medeiros, head de macro global da Ashmore, estamos vendo o início de uma rotação longa, com capitais buscando ativos mais descontados após alocações em S&P, ouro e bitcoin.
Medeiros lembra que a Coreia do Sul, em 2026, sobe mais de 38% surfando o rali de inteligência artificial, e que “essa história rima com o Brasil”, resumiu ele, destacando a semelhança entre mercados emergentes que tiveram saída de investidores locais.
Sobre a duração do ciclo, Medeiros traduziu uma ideia emblemática, dizendo que “estamos no fim do começo”, indicando que o movimento pode ter muito espaço para evoluir, embora ainda envolva fluxos modestos comparados a ciclos passados.
Riscos e o que observar adiante
Existem riscos políticos e macro, entre eles as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que podem alterar expectativas sobre um dólar fraco ou forte, influenciando o rali dos emergentes.
Medeiros avalia que perder o Congresso é o base case para Donald Trump, seguindo padrões históricos, mas mantém a visão de que a rotação estrutural para emergentes não se desfaz no curto prazo.
Para analistas, a convergência entre avanços tecnológicos e a dispersão geográfica do capital tende a manter mercados como o brasileiro no radar de grandes investidores globais, o que pode sustentar o rali dos emergentes nas próximas semanas e meses.