A indústria de crédito privado nos Estados Unidos, que cresceu exponencialmente após a crise financeira de 2008, está sob os holofotes devido a uma onda de resgates que expõe fragilidades em seu modelo de negócio. A distorção entre o valor que os fundos atribuem às suas carteiras e o preço de negociação de suas cotas em bolsa criou um cenário onde o resgate direto se tornou mais vantajoso do que a venda no mercado aberto.
Alexandre Muller, sócio e gestor de crédito privado da JGP, aponta que o problema não reside na qualidade dos ativos, mas sim no desenho dos próprios veículos de investimento. Essa dinâmica permite que investidores obtenham ganhos ao resgatar suas cotas, um atalho que não é acessível a quem vende no mercado secundário. A situação ganha contornos mais preocupantes com alertas de figuras proeminentes como Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, que compara os excessos recentes do setor a episódios que precederam a crise de 2008.
O tema foi amplamente discutido em um programa da XP, onde Muller, recém-chegado dos EUA, detalhou o panorama. Ele explicou que o crédito privado americano se desenvolveu significativamente após 2008, aproveitando o aperto nas regras de capital para bancos e abrindo espaço para fundos que passaram a financiar empresas diretamente. O ciclo de juros baixos nos anos seguintes impulsionou a captação e consolidou a indústria como uma das classes de ativos de maior crescimento global.
Estrutura Regulatória Americana x Brasileira: Um Contraste Crucial
Muller destaca uma diferença estrutural fundamental entre os mercados americano e brasileiro. Nos Estados Unidos, o crédito privado opera em grande parte fora do escrutínio regulatório direto, com transações ocorrendo diretamente entre fundos e empresas. Em contrapartida, no Brasil, mesmo fundos com carteiras mais específicas precisam de autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e contam com administradores independentes responsáveis pela precificação dos ativos.
Essa falta de supervisão direta nos EUA contribuiu para o crescimento desenfreado, mas também para a vulnerabilidade atual. A ausência de um administrador independente nos fundos de varejo listados em bolsa, que operam em um modelo híbrido com possibilidade de resgates trimestrais, é o epicentro da tensão. A exposição desses fundos ao setor de software, temido pelas implicações da inteligência artificial, derrubou o valor das cotas, levando-as a serem negociadas com desconto em relação ao patrimônio.
O Descompasso que Gera a Onda de Saques
O descompasso entre o valor patrimonial e o preço de mercado se tornou um incentivo direto para os saques. Investidores que resgatam recebem pelo valor patrimonial, enquanto os que vendem na bolsa aceitam o desconto. Esse cenário levou a um acúmulo de pedidos de resgate que excederam os limites permitidos pelos regulamentos trimestrais. Gestoras renomadas como Apollo, Blackstone e Blue Owl foram forçadas a restringir os saques, gerando preocupação no mercado.
Apesar do alarme, Muller avalia que se trata mais de um problema de produto do que da classe de ativos em si. Ele ressalta que o crédito privado americano ainda possui grande capacidade para financiar projetos inovadores como data centers, energia limpa e até royalties musicais. O casamento entre o prazo dos ativos e passivos, especialmente quando os recursos vêm de seguradoras com compromissos de longo prazo, continua sendo um ponto forte.
O Cenário Brasileiro Frente às Turbulências Americanas
No Brasil, o cenário de crédito tem sido marcado por eventos relevantes desde 2023, como os casos Americanas e Light, e mais recentemente os pedidos de recuperação extrajudicial da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar. No entanto, especialistas da XP ponderam que a dispersão entre os gestores brasileiros é significativa, e o trabalho desses profissionais foca em antecipar e se afastar de papéis com risco iminente, mostrando uma abordagem distinta em relação aos problemas estruturais vistos nos EUA.