Setor de Serviços Apresenta Sinais de Acomodação em Março, Mas Estímulos Podem Evitar Retrações Maiores
O setor de serviços continua a demonstrar uma tendência de acomodação em patamares mais baixos, afastando-se dos níveis observados nos últimos cinco anos. Dados recentes do IBGE apontam para uma queda de 1,2% no volume de serviços em março em comparação com fevereiro, um reflexo, em parte, dos efeitos defasados da política monetária restritiva.
Essa desaceleração tem sido uma constante nos últimos meses. Luiz Carlos de Almeida Junior, analista da Pesquisa Mensal de Serviços, destacou que, nos últimos cinco meses, foram registrados quatro meses de variação negativa e apenas um de estabilidade. Isso resulta em uma acumulação de queda de 1,7% no setor desde outubro de 2025, período em que o setor atingiu seu pico.
A queda em março foi generalizada, afetando todas as cinco atividades investigadas. O setor de transportes se destacou como o principal responsável por esse recuo, com declínios tanto no transporte rodoviário de cargas quanto no transporte aéreo de passageiros. Essa informação foi divulgada pelo IBGE.
Impactos da Política Monetária e Endividamento Familiar
Economistas da XP comentaram que o resultado de março ficou abaixo das expectativas, com retrações em todos os principais grupos do setor. No entanto, a análise sugere cautela na interpretação desses dados. O aumento do comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida continua sendo um fator negativo importante, limitando a demanda por serviços não essenciais.
Por outro lado, a XP pondera que o mercado de trabalho segue robusto. Combinado com o aumento das transferências fiscais e outras medidas de estímulo, isso deve sustentar a demanda doméstica nos próximos meses. A projeção da XP para a receita total do setor de serviços em 2026 é de um crescimento de 2,5%, após uma alta de 2,9% em 2025.
Serviços Prestados a Famílias e Expectativas para o Futuro
Rafael Perez, economista da Suno Research, observou que, apesar da queda mensal, os serviços prestados às famílias apresentaram uma alta de 0,3% no trimestre. Isso foi impulsionado por recentes estímulos ao consumo, como a reforma do imposto de renda e o crescimento real do salário mínimo. Ele acredita que os dados indicam uma acomodação da atividade em patamares mais baixos, refletindo a política monetária restritiva, mas também uma moderação do forte crescimento anterior.
André Valério, economista sênior do Inter, vê uma desaceleração mais intensa no setor. Ele sugere que o recuo pode ser um efeito de realocação de consumo, possivelmente ligado ao aumento nos preços dos combustíveis, o que também foi observado em outros indicadores como a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC). Valério estima que o IBC-Br apresente uma retração de 0,2%.
Inflação e Mudanças na Dinâmica do Setor
Matheus Pizzani, economista do PicPay, aponta a inflação como um possível fator para a retração nos serviços prestados às famílias em março. O aumento de preços se concentrou em bens essenciais, e fatores como juros elevados e endividamento familiar continuam a corroer a renda disponível. Ele espera uma mudança na dinâmica do setor, com os serviços de transporte ganhando dinamismo devido à maior demanda externa por commodities agrícolas.
Pizzani ressalta, contudo, que esse movimento deve apenas limitar retrações mais intensas. A desaceleração da demanda por serviços por parte das empresas e a estagnação do consumo das famílias tendem a manter o cenário das próximas divulgações da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) semelhante ao atual.
Projeções para o PIB e Desempenho Setorial
Apesar da queda no setor de serviços, as projeções para o PIB do primeiro trimestre não sofreram alterações significativas, pois os setores de indústria e comércio apresentaram resultados positivos. O XP Tracker projeta um crescimento de cerca de 1,0% para o PIB no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior, e de 1,8% em relação ao mesmo período de 2025. A XP mantém sua projeção de alta de 2,0% para o PIB em 2026.
Rafael Perez, da Suno, também prevê uma alta de 1,0% no PIB no primeiro trimestre de 2026, mas com uma tendência de desaceleração gradual nos trimestres seguintes. Ele destaca que o desempenho mais forte da indústria e do varejo deve compensar a desaceleração dos serviços. Pizzani, do PicPay, concorda com a visão otimista para o PIB do primeiro trimestre, projetando uma alta de 0,8%, e mantém a projeção de 1,7% para o PIB ao final de 2026.
O Bradesco avalia que o número de março indica uma acomodação da atividade doméstica, deixando um ritmo de largada mais baixo para o segundo trimestre, com crescimento esperado próximo de 1% nos primeiros três meses e desaceleração para cerca de 0,5% no segundo trimestre. O Itaú observa um desempenho desigual entre os segmentos de serviços, com informação e comunicação em alta e transportes em queda, o que deve se refletir em uma dispersão significativa no PIB de serviços do primeiro trimestre.
Heliezer Jacob, do C6 Bank, acredita que, apesar do desempenho mais fraco dos serviços, outros dados de atividade, como indústria e varejo, impulsionaram a economia. Sua projeção é de que o PIB tenha avançado 1,7% no primeiro trimestre.