A circulação de Shigella resistente entre homens que fazem sexo com homens aumenta casos de diarreia sexualmente transmissível, limita tratamentos e preocupa autoridades de saúde
Casos de diarreia e vômitos causados por Shigella têm se tornado mais difíceis de tratar quando a infecção é transmitida por contato sexual.
Pacientes apresentam sintomas que vão de dor abdominal e diarreia a disenteria com sangue, e muitas cepas agora resistem a medicamentos usados anteriormente com sucesso.
O fenômeno tem sido observado principalmente entre homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens, com transmissão local em redes comunitárias.
conforme informação divulgada pelo CDC e por estudo liderado por Kate Baker publicado na The Lancet Infectious Diseases e dados do UKHSA
O que é a bactéria e como ela se espalha
Shigella é um micro-organismo que causa shigelose, que em alguns casos evolui para disenteria, com diarreia acompanhada de sangue.
A Shigella, responsável por cerca de 450 mil infecções por ano nos Estados Unidos, já apresenta cepas resistentes a vários antibióticos e passou a ser identificada com mais frequência como uma infecção sexualmente transmissível.
A transmissão ocorre principalmente pela ingestão da bactéria, inclusive por água ou alimentos contaminados, mas o contato sexual também se tornou uma via importante, especialmente em determinadas redes de contato.
Dados do CDC mostram aumento da resistência
Uma análise recente dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) avaliou quase 17 mil amostras de Shigella coletadas entre 2011 e 2023.
Em 2011, nenhuma das amostras apresentava resistência aos cinco antibióticos avaliados, Em 2023, as cepas com resistência extensiva a medicamentos representavam 8,5% das amostras.
A maior parte dessas versões resistentes foi identificada em homens adultos, muitos dos quais não haviam viajado para outros países nos meses anteriores, o que reforça a hipótese de transmissão dentro da própria comunidade.
Situação no Reino Unido e alerta de pesquisadores
Pesquisadores do Reino Unido encontraram cenário semelhante de aumento de cepas resistentes de Shigella transmitidas sexualmente, com análise genética apontando múltiplas variantes sobrepostas.
Em 2025, 86% das amostras de Shigella sonnei e 94% das amostras de Shigella flexneri analisadas pela Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA) apresentaram resistência a antibióticos.
A genética Kate Baker, da Universidade de Cambridge, afirmou que Esta não é apenas uma forma de diarreia sexualmente transmissível, Trata-se do surgimento de múltiplas variantes sobrepostas que estão rapidamente se tornando resistentes aos medicamentos que usamos para tratá-las, e acrescentou que É muito provável que, se você contraiu Shigella por meio de relações sexuais, precise de um tratamento diferente de alguém que a contraiu durante uma viagem.
Pesquisas anteriores também indicaram que até um terço dos pacientes com Shigella transmitida sexualmente precisou ser hospitalizado, e que, nesses casos, a internação durou, em média, de quatro a cinco dias.
Prevenção e orientações para pacientes e profissionais
Para reduzir o risco de transmissão, as autoridades recomendam cuidados no período em que há diarreia, e atenção especial à higiene durante e após relações sexuais.
Medidas práticas incluem, entre outras,
- Evitar relações sexuais com pessoas que tiveram diarreia nas duas semanas anteriores
- Usar preservativo durante relações sexuais, incluindo sexo oral e anal
- Manter cuidados de higiene antes e depois das relações sexuais
- Procurar atendimento médico ao apresentar sintomas compatíveis com shigelose
Profissionais de saúde devem investigar a possibilidade de transmissão sexual em pacientes com disenteria e orientar sobre formas de prevenção, incluindo considerar opções terapêuticas diferenciadas quando a origem da infecção for sexual.
O avanço da Shigella resistente destaca a necessidade de vigilância, testes de sensibilidade e campanhas de informação voltadas a comunidades mais afetadas, para reduzir disseminação e preservar opções de tratamento eficazes.

