A campanha presidencial de Augusto Cury misturou a narrativa dos seus livros, o brilho das redes sociais e decisões políticas que surpreenderam eleitores e aliados.
De autor de best sellers a candidato do Avante em 2026, Cury alternou promessas de neutralidade, exigências sobre o filme Dark Horse e uma desistência pública da política, antes de fechar apoio a Flávio Bolsonaro.
Em 4 de outubro, o candidato obteve 3,44 milhões de votos e terminou a disputa em terceiro lugar, e, quatro dias depois, anunciou apoio a Flávio por videochamada, conforme apuração do Metrópoles.
Da obra à praça pública
Augusto Cury é psiquiatra, nasceu em Colina, no interior de São Paulo, e se tornou um dos escritores mais vendidos do país, com mais de 30 milhões de livros, segundo ele e suas editoras, e cerca de 10 milhões de seguidores no Instagram.
Seus cinco livros citados na campanha ajudam a entender o desenlace. Em Inteligência Multifocal ele lança a teoria da mente acelerada, com a técnica DCD, sigla de Duvidar, Criticar e Determinar, para conter impulsos. Em O Vendedor de Sonhos surge o personagem Mestre, que não tem cargo nem partido e critica a busca por fama e poder.
Em Ansiedade, Como Enfrentar o Mal do Século Cury alerta para a hiperconexão, e em Nunca Desista de Seus Sonhos ele lembra que a derrota é etapa. Em O Homem Mais Inteligente da História analisa Jesus como exemplo de calma sob pressão.
O pico nas redes, a suspeita e a queda
Na prática, a campanha parecia ter deixado os livros na estante. Em abril, Cury entrou no Avante dizendo não amar o poder, igualzinho ao personagem do seu romance, mas na convenção estavam autoridades como o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, pista da proximidade com setores do centro-direita.
No mês seguinte, após um debate na TV, Augusto Cury viralizou, ganhou milhões de seguidores e saltou de 2% para 10% nas pesquisas, mas quando o engajamento caiu passou a desconfiar da Meta e pediu uma auditoria internacional, apesar de a campanha ter investido mais de R$ 116 mil para impulsionar posts.
Prometera campanha sem ataques, mas fez exigências públicas a Flávio Bolsonaro, pedindo que ele explicasse o dinheiro do filme Dark Horse e assinasse compromissos em cartório. No dia seguinte disse que não apoiaria nenhum dos dois candidatos principais, criando contradições com sua própria teoria do DCD.
O resultado, o silêncio e o apoio
Em 4 de outubro, o candidato obteve 3,44 milhões de votos e terminou a disputa em terceiro lugar. Na noite, Cury anunciou silêncio sobre o segundo turno e afirmou ter 100% de certeza de que deixaria a política, declaração que chocou eleitores que esperavam o conselho de quem escreveu sobre persistência.
O silêncio durou quatro dias. Segundo reportagem, antes de decidir, Cury conversou por telefone com José Múcio, ministro da Defesa de Lula, e, no dia 8, numa videochamada, fechou apoio a Flávio, que assinou oito compromissos. O quesito sobre o filme Dark Horse foi adiado, ficando para “um próximo capítulo”.
O legado e as lições da campanha
A trajetória de Augusto Cury na campanha mostra uma tensão entre imagem pública e jogo político. O autor pregou controle emocional e recusa ao poder em seus livros, e, na arena eleitoral, alternou entre neutralidade, exigências e um apoio que divide leitores e eleitores.
Seus ensinamentos, como a técnica DCD, foram aplicados na ordem oposta na política, e fica a reflexão sobre como ideias de autoajuda e literatura pública se traduzem em decisões eleitorais, quando o eleitor dará a palavra final em 25 de outubro.

