Bancos aceleram oferta de crédito consignado para funcionários de empresas privadas, impulsionados por menor risco de inadimplência e juros mais baixos, visando blindar balanços em cenário de alta Selic.
O início do ano marcou uma intensificação na disputa dos grandes bancos brasileiros pelo crédito consignado privado. Após um começo mais cauteloso, as instituições financeiras demonstraram um apetite renovado pela modalidade, buscando fortalecer suas carteiras em um momento de incertezas econômicas no país.
A estratégia visa mitigar os riscos associados ao endividamento e à inadimplência, características de outras linhas de crédito mais voláteis. O consignado privado, com o desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento, oferece uma segurança maior para os bancos, refletindo diretamente em condições mais favoráveis para os consumidores.
Esses avanços ocorrem mesmo com a necessidade de ajustes operacionais no sistema Dataprev, responsável pelo processamento dos empréstimos. Conforme informações divulgadas pelo Banco Central, a carteira total do consignado para funcionários do setor privado ultrapassou a marca de R$ 100 bilhões em março, um crescimento expressivo de 142% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Consignado Privado: Segurança e Potencial de Crescimento
A modalidade de crédito consignado para trabalhadores do setor privado se consolidou como uma alternativa segura e vantajosa. O desconto automático das parcelas na folha de pagamento minimiza o risco de inadimplência para as instituições financeiras, permitindo a oferta de taxas de juros mais competitivas para os tomadores de crédito.
Além disso, o produto oferece a possibilidade de utilização de parte do saldo do FGTS para amortizar a dívida, um diferencial importante em caso de demissão sem justa causa. Esses mecanismos combinados reduzem a exposição ao risco e tornam o consignado uma opção atraente para quem busca crédito pessoal.
Maria Estela Ferraz de Campos, head de crédito da Integral Group, explica que a alta da taxa Selic tem direcionado a postura dos bancos. “Eles estão diminuindo a exposição ao crédito pessoal sem garantia, como cartão de crédito, e dando importância para linhas em que o consumidor pode dar um ativo como garantia ou então para o consignado”, afirma.
Disputa Acirrada e Liderança do Itaú
O cenário de crescimento do consignado privado abre um leque de oportunidades para as instituições financeiras, mas também intensifica a concorrência. Marcos Brasiliano Rosa, vice-presidente de Finanças e Controladoria da Caixa Econômica Federal, avalia que a briga se concentrará na conquista das empresas com maior número de funcionários.
“É por isso que estamos observando bancos com uma carteira PJ maior estão alavancando mais o segmento”, comentou Brasiliano ao Broadcast. Entre os bancos privados, o Itaú Unibanco se destaca, com sua carteira de consignado privado saltando de aproximadamente R$ 12 bilhões para R$ 19,5 bilhões no primeiro trimestre, detendo mais de 20% de participação de mercado.
Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, ressaltou o crescimento com qualidade: “Estamos crescendo com muita qualidade, nos clientes certos, naturalmente com uma visão de rentabilidade adequada”. No Bradesco, o saldo do consignado privado cresceu quase 43% anualmente, alcançando cerca de R$ 6,7 bilhões, o que representa 6,6% do mercado geral.
Desafios Operacionais e Regulatórios no Horizonte
Apesar do avanço, o setor bancário ainda aguarda a resolução de pendências operacionais no sistema Dataprev. A automação da portabilidade entre bancos e a migração automática de contratos em caso de troca de emprego são pontos cruciais para a expansão da modalidade.
Atualmente, a mudança de empresa exige a formalização de um novo contrato, um processo que o governo busca automatizar. Segundo Marcos Brasiliano, da Caixa, as melhorias no sistema começaram a ser implementadas em maio e devem estar totalmente operacionais em setembro, com alguns efeitos já visíveis em junho.
Outro ponto de atenção é a regulamentação do uso das garantias vinculadas ao FGTS. Enquanto o governo defendia a centralização pela CTPS digital, o setor bancário buscava acesso pelos seus próprios canais. Um meio-termo foi alcançado, permitindo que os bancos ofertem as garantias em seus aplicativos, sob certas restrições.
Controle de Taxas e Perspectivas de Mercado
Recentemente, o governo publicou uma portaria para coibir o que considera “taxas abusivas” no crédito consignado. A resolução prevê punições para instituições que excedam taxas de referência calculadas pelo Ministério do Trabalho e estabelece limites para o Custo Efetivo Total (CET) em operações via plataformas digitais.
Em março, o juro médio do consignado CLT estava em 56,8% ao ano, ou cerca de 3,8% ao mês, conforme dados do Banco Central. Analistas da Fitch apontam que incertezas regulatórias e operacionais ainda representam dificuldades para a escalada do consignado privado, impactando os custos de juros e a eficiência do mercado.
Apesar desses desafios, o potencial do consignado privado para o modelo de negócios dos bancos é inegável. A expectativa é que, com a resolução das pendências operacionais e a clareza regulatória, a modalidade continue a expandir, oferecendo crédito mais seguro e acessível a um número crescente de trabalhadores brasileiros.