Bolsa brasileira atrai gringos com preços baixos, mesmo com empresas endividadas, segundo gestores
Grandes companhias listadas na Bolsa brasileira enfrentam um ambiente de forte pressão financeira, com dívidas elevadas e aumento do estresse no crédito. Contudo, investidores estrangeiros começam a enxergar oportunidades em um mercado considerado historicamente descontado.
O cenário de juros altos por prolongado tempo assusta, mas também atrai quem busca valor onde parte dos investidores vê apenas risco. A preocupação com o ciclo de crédito doméstico ganha força no debate entre gestores, que alertam para a situação de algumas empresas importantes.
Conforme informação divulgada no programa AfterMarket, do Stock Pickers, grandes empresas dominantes de mercado em algum momento já apresentam problemas de dívida sérios, com necessidade de reestruturações e “haircuts” (descontos). A situação é ainda mais delicada para as pequenas e médias. A matéria cita Cosan (CSAN3), Via Varejo (BHIA3) e Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) como exemplos de empresas passando por pesadas reestruturações de dívida. Grupos como Simpar (SIMH3) e CSN (CSNA3) também estão na lista de atenção por histórico de alavancagem.
Empresários vendem ativos para honrar dívidas em cenário de juros elevados
A mudança de postura de controladores chamou a atenção de Christian Keleti, da Alpha Key. Ele observa que poucas vezes se viu empresários dispostos a se desfazer de ativos relevantes para honrar dívidas, o que indica a gravidade da situação para a estrutura de capital de algumas companhias.
O pano de fundo é uma curva de juros que, até recentemente, girava em torno de 14% ao ano. Esse patamar de juros pressiona qualquer projeto financiado, levantando o questionamento sobre quais projetos conseguem se sustentar com custos tão elevados. Bruno Serra, da Itaú Asset, identificou a raiz do problema na dificuldade do governo em ancorar as expectativas de inflação de longo prazo, o que gera fragilidade e impede o alongamento do ciclo de crédito.
Andrew Reider, da WHG, também alertou para o endividamento das famílias brasileiras. Ele mencionou que, em conversas com investidores estrangeiros em Nova York, foi apontado que cerca de 30% da renda já está comprometida com o serviço da dívida. Apesar do crescimento da renda, os brasileiros estão se alavancando ainda mais, em vez de quitar débitos.
Bolsa brasileira barata: oportunidade ou armadilha?
Apesar do cenário adverso, o grupo de gestores identificou oportunidades no mercado acionário. Keleti apresentou um levantamento que mostra que praticamente todos os 12 principais setores da Bolsa estão próximos do piso de múltiplos dos últimos cinco anos, indicando um potencial de barganha.
No entanto, o gestor faz ressalvas importantes. Ele adverte que nem tudo que parece barato é, de fato, uma oportunidade. Empresas de setores como consumo de baixa renda e varejo podem não entregar os resultados esperados, o que significa que o desconto real pode ser menor do que aparenta à primeira vista. A análise de múltiplos históricos deve ser feita com cautela, considerando a capacidade de entrega das empresas.
Investidores estrangeiros veem valor em empresas sólidas e com potencial
Keleti destacou que enxerga uma assimetria favorável em companhias pouco endividadas e líderes de mercado. Ele citou a Mills (MILS3), empresa de locação de equipamentos, que recebeu uma oferta de aquisição de cerca de US$ 500 milhões, como exemplo de valuation atrativo. A saída de boas empresas do mercado por valuations baixos sinaliza que o mercado brasileiro chama a atenção de investidores externos.
A Localiza (RENT3) foi outro exemplo citado. A ação, que já negociou entre 25 e 30 vezes o lucro, hoje está em cerca de 10 vezes, mesmo com a concorrência de carros elétricos chineses. Keleti sugere que o temor em comprar a Localiza a esse múltiplo pode estar exagerado, abrindo uma oportunidade para quem busca valor em empresas consolidadas.