O mercado de crédito para médias e grandes empresas passa por uma transformação silenciosa, com gestoras e DTVMs menores ganhando espaço, oferecendo operações sob medida via FIDCs.
Essas casas regionais exploram proximidade, tecnologia e estruturas de mercado de capitais para atender empresas que os bancos tradicionais deixam de lado.
Conforme informações da Azumi Investimentos, do Grupo IOX, da Audax Capital e do relatório Panorama PME, de 2025, da Serasa Experian, o movimento acelera enquanto as condições de crédito seguem assimétricas no país.
Por que os bancões recuaram e sobraram oportunidades
Com foco em escala, os grandes bancos têm reduzido o apetite por concessões de nicho e por segmentos que exigem estrutura dedicada.
Para Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, “É mais fácil para a instituição financeira criar um produto e fazer com que as empresas o consumam do que criar algo customizado, cliente a cliente”.
A Serasa Experian, no relatório Panorama PME, de 2025, ressalta que o “Indicador de Condições de Crédito a MPMEs registrou -0,18 ponto no segundo semestre de 2025, o que significa que, ‘apesar da expansão nominal do crédito, as condições para obtê-lo seguem desfavoráveis'”.
O resultado é que pequenas e médias empresas, na prática, “pagam mais caro, esperam mais tempo e têm acesso a volumes menores de recursos do que o grande empresário”, segundo a análise citada pela Serasa Experian.
Como as boutiques de crédito atuam, e por que vencem
As **boutiques de crédito** estruturam operações por meio de FIDCs e outros veículos, oferecendo soluções customizadas para o **middle market**.
Edgar Araújo diz que “O FDIC absorve não só o crédito de nicho, mas também o crédito que não tem um carimbo determinado”, e a Azumi já soma 77 FIDCs focados em médias e grandes empresas e R$ 3 bilhões sob gestão.
Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, complementa que os bancos “esqueceram um pouco o middle porque o segmento dá trabalho e não oferece o retorno de escala que eles buscam”, e a IOX tem uma carteira próxima a R$ 3 bilhões.
Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, ressalta que a vantagem competitiva das boutiques é a **proximidade** com o cliente e o uso da tecnologia, afirmando que “A gente é mais próximo dos clientes do que os bancos, conseguimos ofertar produtos cada vez mais especializados para cada perfil de cliente, porque a gente tem uma proximidade muito grande”.
Desafios operacionais e o futuro do mercado
Atuar no middle market exige trabalho de “trincheira”, porque muitas empresas têm desorganização financeira e governança frágil.
Da Matta explica que “O middle não tem uma governança clara, um balanço auditado”, e que “Ele mistura sempre o caixa da pessoa física com o da pessoa jurídica”. Por isso, a Audax costuma limitar prazos a operações de até 36 meses.
Ionescu relata que, em vários casos, a boutique precisa primeiro “arrumar a casa” do cliente, chegando a indicar consultores de reestruturação financeira antes de conceder crédito.
Executivos divergem sobre consolidação, Pedro Da Matta aposta em M&A quando a Selic cair, enquanto Richard Ionescu aposta na manutenção da pulverização do setor. Edgar Araújo observa que a janela de crescimento atual permite escala antes que os grandes jogadores reajam, e que a concorrência tende a aumentar entre casas semelhantes.
O cenário sinaliza que as **boutiques de crédito** regionais seguem ganhando capilaridade, aproveitando a falta de oferta customizada dos grandes bancos e atraindo investidores em busca de retornos no crédito privado, especialmente em um ambiente de juros elevados.