CDI: O Fim do “Ativo Livre de Risco”? Entenda o Estudo da XP e Atlantiqis
Uma premissa amplamente aceita no mercado financeiro brasileiro, a ideia de que o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) é o ativo livre de risco, está sendo desafiada por um novo estudo. A pesquisa, resultado da parceria entre XP e Atlantiqis, sugere que essa visão pode não ser adequada para a maioria dos investidores, levando à perda de poder de compra ao longo do tempo.
O trabalho, intitulado “Repensando o ativo sem risco”, aponta que o verdadeiro ativo livre de risco varia conforme o horizonte e os objetivos de cada investidor. Para aqueles focados em preservar riqueza real, como famílias, poupadores e fundos de previdência, uma carteira de títulos atrelados à inflação seria mais indicada do que aplicações ligadas ao CDI.
Conforme informações divulgadas pela XP e Atlantiqis, o estudo apresenta evidências concretas de que o CDI falhou em proteger o poder de compra em momentos recentes. Entre 2020 e 2021, por exemplo, o retorno real foi negativo, impactado pelo choque inflacionário da pandemia. Em um período mais amplo, de 2019 a 2023, o ganho nominal acumulado foi praticamente anulado pela inflação, resultando em estagnação do patrimônio real.
CDI: Falha na Proteção do Patrimônio Real
O estudo demonstra que o comportamento do CDI não é um evento isolado. Períodos de estagflação, repressão financeira e crises de liquidez historicamente corroem os retornos reais de ativos nominais de curto prazo, categoria na qual o CDI se enquadra. Isso significa que, em cenários adversos, o dinheiro investido pode perder valor real.
Títulos Indexados à Inflação: A Alternativa para Preservar Riqueza
Em contrapartida, o estudo aponta os títulos indexados à inflação, como os atrelados ao IPCA (representados por índices como IMAB5 e IMAB5+), como mais eficientes na preservação do patrimônio real. Entre 2010 e 2026, esses ativos apresentaram um retorno real médio superior ao do CDI, mesmo em horizontes de investimento mais curtos. Uma característica importante é que o risco desses títulos diminui com o alongamento do prazo, devido à previsibilidade dos retornos reais e ao efeito de reversão à média.
Simulações de gestão de ativos e passivos (asset-liability management) destacam a superioridade dos títulos indexados. Investimentos em CDI frequentemente não foram suficientes para cobrir compromissos futuros ajustados pela inflação, como o pagamento de uma faculdade. Nesses casos, uma carteira de títulos públicos indexados com vencimentos alinhados ao objetivo conseguiu “imunizar” o investidor contra a inflação, reduzindo o risco efetivo a quase zero em termos reais.
Evidências Globais e o Custo da Proteção
A análise não se restringe ao Brasil. Nos Estados Unidos, os títulos de curtíssimo prazo (T-bills), equivalentes ao CDI, apresentaram retorno real médio negativo nas últimas duas décadas. Em contraste, os títulos protegidos contra a inflação (TIPS) ofereceram a melhor relação entre retorno e risco no período, reforçando a tese de que ativos reais indexados cumprem melhor o papel de “livres de risco” para investidores de longo prazo.
Investir em títulos indexados à inflação, em tese, implica em pagar um “prêmio” pela proteção, refletido na diferença entre juros nominais e reais. No Brasil, esse prêmio é elevado, girando em torno de 1,93 ponto percentual ao ano para cinco anos em março de 2026. Ainda assim, os autores destacam que esse custo tem se mostrado vantajoso, pois a inflação realizada frequentemente superou as expectativas, compensando o prêmio pago.
O Papel do CDI e as Novas Ferramentas de Investimento
O estudo não descarta o CDI completamente. Para investidores cuja riqueza excede amplamente suas necessidades futuras, o CDI pode funcionar como um ativo de liquidez e base de alocação. A visão central é que não existe um único ativo livre de risco para todos. O conceito depende do objetivo do investidor e da necessidade de preservar o poder de compra ao longo do tempo.
Nesse contexto, o CDI protege o valor nominal, mas não necessariamente o valor real. Já os títulos indexados ao IPCA oferecem proteção direta contra a inflação, sendo o risco relevante o descasamento entre ativos e objetivos futuros. Com a expansão de instrumentos como Tesouro IPCA+, Renda+ e Educa+, o Brasil oferece hoje ferramentas mais alinhadas a essa abordagem, um cenário ainda pouco comum em mercados emergentes.

