A presença de uma célula do PCC no Chile reacende preocupações sobre o refinamento de rotas de tráfico que evitam a travessia pelo território brasileiro.
Investigadores identificaram planejamento para exportar grandes cargas de drogas por portos marítimos do país, além de recrutamento e articulação com redes internacionais.
As informações constam em apurações que envolveram autoridades brasileiras e chilenas, com dados compartilhados entre promotorias e polícias, conforme apuração do Meganoticias, do Grupo de Combate ao Crime Organizado, Gaeco, do Ministério Público de São Paulo, MPSP, e da Polícia de Investigações chilena, PDI.
Operação Sintonia 1533 e alvos da investigação
Deflagrada em 28 de setembro, a Operação Sintonia 1533 foi a primeira ação formal contra a facção no Chile, segundo o noticiário chileno Meganoticias, e teve como alvo uma quadrilha integrada por brasileiros e chilenos batizados na organização.
A força-tarefa cumpriu 18 de 24 mandados de prisão, sendo cinco deles fora do país, e 13 de suspeitos já estavam recolhidos no sistema prisional, segundo as reportagens. Outras duas pessoas foram presas em flagrante durante buscas.
O brasileiro Lucas Leonardo de Oliveira Santos, conhecido como Negrinho, foi apontado como líder da célula no Chile, e gerenciava a quadrilha mesmo estando preso no centro penitenciário Santiago Uno, conforme apurado pelas autoridades envolvidas.
Novas rotas, logística e ameaças
Investigadores identificaram planos para escoar até 500 kg de metanfetamina por um porto marítimo chileno, além de tentativas de recrutamento de menores para integrar a organização, de acordo com a apuração.
O Chile ocupa posição estratégica na América do Sul, sem fronteira direta com o Brasil, mas fazendo divisa com países andinos produtores de cocaína, como Peru e Bolívia, e contando com grandes portos no Oceano Pacífico.
Essa configuração facilita, para a célula do PCC no Chile, o envio direto de drogas para a Oceania e a Ásia, reduzindo a necessidade de rotas que passem pelo território brasileiro, o que altera padrões de fiscalização e intervenção.
Rede internacional e citações de autoridades
A investigação apontou que a rede mantinha contatos operacionais em mais de 20 países, entre eles Brasil, Paraguai, Bolívia, Portugal e Argentina, segundo as fontes envolvidas no caso.
O promotor Lincoln Gakyia declarou, sobre a presença da facção no país, “Eles têm, inclusive, Sintonia do sistema prisional no Chile, e eles tinham também integrantes em liberdade”, e acrescentou, “Pela minha experiência, normalmente o PCC finca raízes em países ou estados em que ele tem algum interesse comercial. No caso do PCC, evidentemente, é o tráfico internacional de cocaína”, conforme reportagem do Metrópoles com base em investigações do Gaeco.
A desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ivana David, explicou outro risco logístico, afirmando “A metafetamina que chega da Ásia pode entrar no nosso continente através do Chile. Assim como a cocaína sai, a metafetamina entra”, destacando a função de portos do Pacífico no fluxo de drogas e insumos.
Origem, desdobramentos e implicações
Segundo o Gaeco, o PCC já era identificado no Chile desde 2019, tanto no sistema prisional quanto em atuação nas ruas, e relatórios apontavam dezenas de membros batizados no país.
A Operação Sintonia 1533 é desdobramento da Operação Sólis, deflagrada pelo Gaeco em São Paulo em 2021, que investigou tráfico de drogas e lavagem de dinheiro vinculados à facção, segundo as autoridades.
Para especialistas, a existência de uma célula do PCC no Chile representa não apenas a diversificação de rotas do tráfico transnacional, mas também a consolidação de uma estrutura de “networking do crime”, que permite parcerias com grupos locais e internacionais.
O cenário eleva a complexidade do enfrentamento, pois rotas que dispensam a passagem pelo Brasil podem reduzir a visibilidade das operações e exigir maior cooperação internacional entre autoridades policiais e judiciais.
Autoridades consultadas afirmam que o monitoramento de portos, o intercâmbio de inteligência e as ações coordenadas entre países da região serão determinantes para frear a expansão dessas rotas, e para identificar redes que operam em múltiplas frentes, da produção à logística de exportação.

