Crédito Aumenta, Mas Juros Exorbitantes Pesam no Bolso: 29% da Renda Familiar Comprometida com Dívidas
O cenário financeiro das famílias brasileiras se agrava: o endividamento, sem contar o financiamento imobiliário, disparou **30,9% na última década**. Atualmente, quase **30% da renda total** é destinada ao pagamento de dívidas, um índice alarmante que compromete o orçamento e a capacidade de consumo, conforme dados recentes do Banco Central (BC).
Essa realidade de **alerta extremo**, segundo Flávio Ataliba Barreto, pesquisador associado do FGV IBRE, afeta **49,7% dos brasileiros**. Ele ressalta que, para a maioria, esses compromissos se referem a **despesas essenciais**, evidenciando um grave estrangulamento financeiro.
O impacto desse sufoco reverbera diretamente no desempenho da economia. Com o consumo das famílias sendo o principal motor do Produto Interno Bruto (PIB), a combinação de juros altos, alto comprometimento de renda e inadimplência crescente **retira a força do crescimento econômico**, sinalizando que o endividamento recorde pode ser um freio significativo para o país nos próximos meses. Essas informações foram divulgadas pelo Banco Central.
A Profunda Assimetria do Crédito Brasileiro
Apesar do crescimento geral do crédito, a pergunta que fica é: por que as famílias brasileiras pagam juros tão caros? A resposta, segundo Ataliba, reside em uma **profunda assimetria no sistema financeiro**. Enquanto cidadãos comuns enfrentam taxas exorbitantes, o governo e grandes empresas conseguem se financiar por vias mais acessíveis, como a emissão de títulos públicos e privados.
Esse fenômeno, conhecido como “efeito de deslocamento” ou crowding out, faz com que o governo e grandes corporações absorvam boa parte do dinheiro disponível no mercado. Com menos recursos disponíveis para empréstimos, o **crédito bancário para pessoas físicas se torna escasso e significativamente mais caro**, operando em patamares muito superiores aos cobrados de empresas.
Os números são contundentes: em fevereiro de 2026, o crédito ampliado na economia totalizou R$ 21 trilhões, mas a taxa média do crédito livre para pessoas físicas atingiu **estratosféricos 62% ao ano**, enquanto para empresas ficou em 24,9%. “O crédito não falta na economia — ele está mal distribuído”, afirma Ataliba, destacando que a conta desse desequilíbrio é paga pelas famílias.
Armadilhas do Crédito Consignado e do Cartão de Crédito
A dependência de crédito caro se reflete nas modalidades mais procuradas. O **crédito consignado para trabalhadores do setor privado** teve um salto impressionante de **247,7% em 12 meses**, e o **cartão de crédito** registrou um aumento de **11,8%**. No caso do consignado, o risco reside na ilusão de que o salário líquido menor não impactará o orçamento básico, levando à necessidade de novas dívidas.
Já no segmento de cartão de crédito, as compras parceladas cresceram **21%**, mas o **crédito rotativo**, conhecido por seus juros que multiplicam a dívida rapidamente, subiu **9,3%**. Essa modalidade, que permite rolar a fatura, se tornou uma armadilha financeira para muitos.
O governo federal tem buscado alternativas para aliviar o bolso das famílias, como a regulação das taxas de juros do cartão de crédito. No entanto, especialistas alertam que essa medida pode não ser a solução definitiva. Uma análise do Morgan Stanley sugere que a maioria dos saldos de cartão de crédito no Brasil não gera juros para os emissores devido à popularidade do parcelamento sem juros. A imposição de um limite artificial às taxas do rotativo poderia desestabilizar esse sistema, possivelmente eliminando o parcelamento sem juros e prejudicando o varejo.
A Busca por Soluções Estruturais Contra o Endividamento
Para Flávio Ataliba, as intervenções pontuais no cartão de crédito não atacam a raiz do problema. Ele defende que a **solução definitiva para o endividamento** passa por **reformas estruturais na macroeconomia brasileira**.
Entre as medidas essenciais, Ataliba aponta a **redução contínua da taxa Selic**, a **diminuição da concentração bancária** e, fundamentalmente, a **redução da excessiva participação do governo como grande tomador de crédito** no mercado. Essas ações, em conjunto, poderiam criar um ambiente financeiro mais equitativo e sustentável para as famílias brasileiras.