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Crise em Ormuz vira arma da Rússia: Fertilizantes viram moeda de troca para flexibilizar sanções ocidentais

Rússia transforma crise global em Ormuz em aliada para flexibilizar sanções, usando fertilizantes como moeda de troca

A instabilidade no Estreito de Ormuz, por onde passa um terço dos fertilizantes globais, abriu uma janela de oportunidade para a Rússia. O país, segundo maior produtor e maior exportador de fertilizantes do mundo, está utilizando o acesso a esses insumos cruciais como ferramenta de pressão diplomática.

O objetivo do Kremlin é claro: angariar apoio internacional, tanto no Sul Global quanto em países ocidentais como os EUA e a Europa, para obter a flexibilização das sanções econômicas impostas após a invasão da Ucrânia.

Essa estratégia, que já foi vista em outras ocasiões, como durante a pandemia de Covid-19 com a vacina Sputnik V, agora se concentra na segurança alimentar global. Conforme análise do think tank Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), a Rússia busca consolidar a narrativa de que as sanções prejudicam o Sul Global e que a flexibilização é a única saída para as economias ocidentais. A informação foi divulgada pelo site The Conversation.

Fertilizantes russos como trunfo estratégico

O bloqueio do Estreito de Ormuz, inicialmente praticado pelo Irã e depois pelos Estados Unidos, acabou beneficiando a Rússia. Essa rota vital, que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico, é responsável pelo transporte de aproximadamente um terço dos suprimentos globais de fertilizantes. Com a via interrompida, Moscou surge como a alternativa natural.

Países do Golfo, como Irã, Catar e Arábia Saudita, foram responsáveis por 36% das exportações globais de ureia entre 2023 e 2025, um fertilizante nitrogenado essencial para o agronegócio em nações como Brasil, Austrália e Nova Zelândia. A interrupção desses embarques, aliada ao aumento dos preços do gás natural – matéria-prima da ureia –, gera preocupações com a segurança alimentar.

As economias em desenvolvimento são particularmente dependentes dos fertilizantes russos. Desde fevereiro de 2022, com a invasão da Ucrânia, as sanções ocidentais levaram Moscou a diversificar suas rotas de exportação em direção ao Sul Global, estratégia que tem dado resultados. Em 2025, empresas russas forneceram cerca de um quarto das importações de fertilizantes de países como Brasil e Índia, segundo o ECFR.

A “diplomacia dos fertilizantes” e suas condições

Diante do temor de uma crise alimentar global, o Kremlin anunciou sua disposição em enviar fertilizantes ao Sul Global. No entanto, essa oferta vem com condições. O vice-secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Alexander Venediktov, sugeriu que os países receptores precisariam apoiar o desenvolvimento de agrupamentos liderados pela Rússia, como o BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai.

“Em outras palavras, Moscou está agora colocando condicionantes em seus embarques de fertilizantes”, alerta Agathe Demarais, pesquisadora sênior de Políticas Públicas do ECFR, em análise divulgada pelo The Conversation. Essa tática não é nova, pois a Rússia já utilizou a oferta de sua vacina Sputnik V como “arma” durante a pandemia de Covid-19.

No caso da vacina, a Rússia vinculou entregas a acordos econômicos ou alinhamento político, como visto na Bolívia, onde a oferta de doses foi atrelada ao desenvolvimento de um campo de gás e à construção de um centro de pesquisa nuclear. Embora a “diplomacia da vacina” tenha tido sucesso limitado em muitos países devido a atrasos e dúvidas sobre a qualidade, o objetivo principal era a projeção de imagem de socorro ao Sul Global.

Limitações e pressões sobre Europa e EUA

A capacidade da Rússia de aumentar significativamente suas exportações de fertilizantes é limitada. O oleoduto Togliatti-Odessa, crucial para o transporte de amônia, permanece fora de operação desde 2022 devido a danos em áreas de combate. Ataques de drones ucranianos também têm afetado fábricas de fertilizantes russas, reduzindo a produção.

Recentemente, o Kremlin impôs limites rígidos às exportações de fertilizantes para evitar escassez interna, o que reforça a ideia de que as ofertas de socorro às economias em desenvolvimento são, na melhor das hipóteses, marginais. Apesar disso, a “diplomacia dos fertilizantes” russa também mira os Estados Unidos e a Europa, com o objetivo de obter alívio nas sanções econômicas.

Os EUA já suspenderam sanções contra fabricantes bielorrussos de potássio, em um movimento que Demarais considera uma coincidência improvável em meio ao temor de alta nos preços de fertilizantes. A União Europeia, por sua vez, enfrenta pressão devido à descoberta de altos níveis de cádmio em fertilizantes de origem marroquina, um cenário que a gigante russa de fertilizantes PhosAgro tem explorado para defender limites mais rígidos de cádmio na UE, incentivando a compra de fertilizantes russos de baixo teor.

A autora prevê que a Rússia usará a França, onde a narrativa de que as sanções prejudicam a Europa é forte, como ponto de pressão para dividir os europeus. A Rússia poderia se beneficiar tanto da flexibilização das restrições sobre seus fertilizantes, o que financiaria sua máquina de guerra, quanto da manutenção da dependência de suprimentos com alto teor de cádmio, gerando uma crise de saúde pública. Independentemente do desfecho em Ormuz, a “diplomacia dos fertilizantes” russa já é considerada um sucesso retumbante pelo Kremlin, consolidando sua narrativa geopolítica.