O que está acontecendo com o Tesouro IPCA+?
As taxas do Tesouro IPCA+ apresentaram uma queda significativa, chegando a 10 pontos-base na última sexta-feira. Esse movimento favorece investidores que já apostavam em uma desvalorização dos juros reais no Brasil. A análise sugere que, dependendo do vencimento escolhido, é possível superar a rentabilidade do CDI.
Um recuo de apenas 50 pontos-base nos juros reais, saindo de 7,5% para 7,0%, por exemplo, já seria suficiente para que um título com duration de pelo menos 6 anos entregasse um retorno superior ao CDI projetado de 14,3% em um horizonte de 12 meses. Para vencimentos mais longos, como 2032 (6,3 anos de duration), o ganho estimado é de 15,2%, e para 2035 (9 anos), chega a 16,4%. No vencimento em 2050, com 24,3 anos de duration, o retorno potencial pode atingir impressionantes 23,7%.
Por outro lado, os títulos com vencimentos mais curtos não capturam essa valorização com a mesma eficiência. A NTN-B 2028, por exemplo, renderia apenas 13,2% no cenário de queda de 50 bps, ficando aquém do CDI. É importante notar que os vencimentos muito longos também amplificam o risco: uma elevação de 1 ponto percentual nas taxas do título de 2050 resultaria em uma perda de 12,8% no período.
Estratégia para capturar ganhos no Tesouro IPCA+
Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office, recomenda que, para aproveitar o potencial de valorização sem assumir riscos excessivos, o foco deve ser em títulos com vencimentos entre 2030 e 2032. Ele explica que não é necessário uma duration tão longa, pois em caso de uma abertura maior nas taxas, os títulos muito longos podem gerar perdas maiores do que os ganhos potenciais.
A Ghia tem aumentado sua exposição a títulos do Tesouro IPCA+ (NTN-Bs), atingindo um recorde histórico de 25% a 30% dos portfólios. Essa decisão se baseia na percepção de que a precificação atual desses títulos não reflete a realidade econômica do país, com prêmios considerados exagerados diante do risco fiscal e cenário externo.
Juros reais brasileiros: um paradoxo no mercado global
A gestora justifica sua tese destacando que o Brasil apresenta um dos maiores juros reais ex-ante do mundo, em torno de 9,5% com dados de março, ficando atrás apenas da Turquia. No entanto, o risco-país do Brasil, medido pelo CDS de 5 anos em 126 pontos, é considerado incompatível com essa remuneração, especialmente quando comparado a países como Rússia e Argentina, que possuem CDS muito mais elevados.
Quando comparado a países emergentes com risco similar, como México e África do Sul, o contraste se torna ainda mais evidente. O Brasil oferece um spread de juro real de 10 anos em relação às TIPS americanas de 5,65 pontos percentuais, superior a todos os seus pares e à média histórica, mesmo após ajustes pelo CDS. Essa distorção, segundo a Ghia, indica que o preço atual do Tesouro IPCA+ está inflado.
Dívida pública e a necessidade de ajuste
Outro ponto crucial para a tese de investimento é a insustentabilidade da trajetória da dívida pública brasileira com juros reais de 7,5%. Mesmo com um superávit primário de 1,5% e crescimento de 2% do PIB, a dívida tende a não se estabilizar. Arantes afirma que, “por bem ou por mal, vai ter que ter um ajuste”, e que o nível atual de juros torna a dívida pública insustentável.
A conclusão da Ghia é que o ajuste virá, inevitavelmente, pela queda dos juros reais. Nesse cenário, quem estiver posicionado em Tesouro IPCA+ colherá ganhos de capital significativos. Além disso, o título serve como uma proteção contra choques inflacionários, oferecendo uma “convexidade rara”, como descreve o gestor. Caso o cenário permaneça pessimista, o carrego ficará em torno de 12%, abaixo do CDI, mas longe de ser uma perda. Se o cenário melhorar, o potencial de alta é relevante, e se piorar muito, a indexação à inflação protege o capital.
Conforme informação divulgada pela Ghia Multi Family Office, a gestora aumentou sua exposição a NTN-Bs para entre 25% e 30% de seus portfólios, um recorde histórico.