Nos últimos dias, dificuldades em fundos que investem em papéis de empresas nos Estados Unidos acenderam um alerta entre economistas e investidores, com suspensão de resgates e reavaliações de carteiras.
Gestoras como Blue Owl, KKR e Apollo registraram problemas que incluíram aumento de inadimplência e queda de valuation, o que pressionou ações do setor e gerou dúvidas sobre liquidez de veículos destinados ao varejo.
O leitor vai encontrar a seguir o que ocorreu nos EUA, como funciona o equivalente brasileiro, e por que especialistas afirmam que o risco aqui existe, mas é diferente, conforme informações divulgadas por Gabriel Uarian, Daniela Gamboa e analistas do mercado.
O que aconteceu nos Estados Unidos
O caso mais emblemático veio da gestora Blue Owl, que anunciou em 18 de fevereiro a decisão de suspender permanentemente as janelas trimestrais de resgate de seu fundo BDC voltado para varejo, o Blue Owl Capital Corp II, um fundo de US$ 1,6 bilhão.
A gestora vendeu US$ 600 milhões em empréstimos diretos, cerca de 34% da carteira, e informou que vai devolver aproximadamente 30% do patrimônio líquido de forma proporcional a todos os cotistas em até 45 dias. Depois disso, o fundo operará em modo run-off, devolvendo dinheiro conforme os empréstimos forem amortizados ou vendidos de forma ordenada.
Segundo o analista Gabriel Uarian, o problema não foi uma crise de liquidez repentina, mas o desalinhamento de prazos entre ativos e passivos. O OBDC II emprestava para empresas de médio porte por prazos típicos de 5 a 7 anos, ao mesmo tempo em que prometia liquidez trimestral ao investidor de varejo.
O episódio também envolve outros gestores, como KKR e Apollo, que reportaram aumento de atrasos e reavaliações a mercado, e reflete uma tensão maior no segmento conhecido como private credit, que chegou a quase US$ 1,8 trilhão nos EUA.
Analistas alertam que a venda massiva de liquidez que os ativos não conseguem entregar naturalmente, combinada com queda de juros e revisões de valuation, pressionou saídas e forçou vendas ou marcações a mercado negativas.
O que isso significa para o Brasil
No Brasil, o veículo que mais se assemelha aos BDCs são os FIDCs, estruturas de securitização que já somam mais de R$ 700 bilhões e, segundo estimativas mencionadas por especialistas, devem chegar perto de R$ 1 trilhão em 2026.
Especialistas como Gabriel Uarian afirmam que a estrutura do mercado brasileiro é diferente e oferece proteção extra. A Resolução 175 da CVM impõe regras que limitam liquidez indevida, por exemplo, FIDCs abertos só podem oferecer empréstimos com prazo total, contando carência e pagamento, de até 180 dias.
A regulação exige ainda monitoramento constante da liquidez pelo administrador, regras claras para suspensão de resgates com comunicação imediata e assembleia de cotistas se a situação se alongar, além de sobregarantia e a alienação definitiva dos créditos, o chamado true sale.
Mesmo assim, o risco não é nulo. Casos recentes, como os da gestora Fictor, que enfrentou saídas de recursos entre 40% e 70% do patrimônio em alguns FIDCs, e da Empirica em 2023, mostram que, quando há desalinhamento entre ativos e passivos em fundos abertos ou com janelas curtas, o problema aparece rapidamente.
Uarian lembra que em alguns episódios a solução passou pela transferência de administração, criação de novos fundos e, em pelo menos um caso, suspensão temporária de resgates envolvendo R$ 272 milhões, por incompatibilidade clara entre ativos e passivos.
Por que especialistas avaliam o sistema brasileiro como mais resiliente
Daniela Gamboa, Head de Crédito Privado e Imobiliário da SulAmérica Investimentos, destaca que o mercado de crédito privado no Brasil é predominantemente composto por debêntures e títulos bancários, e que os FIDCs que financiam pequenas e médias empresas costumam ter carteiras muito pulverizadas e prazos curtos.
Essa pulverização reduz a concentração em grandes empréstimos a setores específicos, como software, que representaram em média 20% das carteiras de alguns BDCs nos EUA e tornaram esses fundos mais vulneráveis a disrupções setoriais.
Além disso, a combinação de fundos majoritariamente fechados, regras da CVM e segregação patrimonial cria um alinhamento natural entre prazos, o que diminui o risco de suspensões permanentes de resgates, segundo analistas.
O que o investidor deve exigir
Para reduzir riscos ao investir em fundos de crédito, especialistas recomendam exigir alinhamento claro de prazos entre ativos e passivos, preferência por veículos fechados quando o ativo é crédito privado de longo prazo, e observação de tranches seniores com rating real e sobregarantia.
Também é importante pedir disclosure de testes de estresse de liquidez, verificar a governança e a transparência do administrador, e entender o mercado secundário de cotas, que começa a surgir como fonte de liquidez marginal para FIDCs.
Conclusão
O episódio nos EUA é um alerta sobre a promessa de liquidez que ativos ilíquidos não conseguem cumprir, e mostra o custo de modelos mal desenhados, segundo especialistas.
No Brasil, a estrutura regulatória e a predominância de fundos fechados dão uma vantagem de estabilidade, mas investidores e gestores precisam manter disciplina, exigir transparência, e acompanhar testes de liquidez para evitar surpresas em ciclos de stress.