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Guerra no Oriente Médio Aumenta Custos de Seguros Marítimos e Pode Elevar Preços de Combustíveis e Importados no Brasil

A escalada do conflito no Oriente Médio coloca o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, no centro das atenções, impactando seguros marítimos e potencialmente o seu bolso. Ataques a embarcações e o risco crescente à navegação levaram seguradoras a cancelar ou suspender apólices na região, o que já eleva custos logísticos e pode se refletir no preço final de produtos no Brasil.

O Estreito de Ormuz, corredor estratégico entre Irã e Omã, é por onde escoa aproximadamente 20% do fluxo global de petróleo e gás. Desde o início dos confrontos na região, em 28 de fevereiro, o tráfego marítimo diminuiu drasticamente, e o risco para as embarcações aumentou significativamente.

Dados da empresa britânica Lloyd’s List Intelligence revelam a magnitude da queda: entre 1º e 11 de março, mais de 1.200 embarcações cruzaram o estreito. No mesmo período recente, foram apenas 77 travessias. Além disso, o ambiente de risco se deteriorou rapidamente, com pelo menos 20 embarcações comerciais relatando ataques ou incidentes na região, incluindo petroleiros, segundo a agência britânica UKMTO.

Essa deterioração da segurança marítima é a principal causa para o cancelamento das coberturas de seguro. Conforme informação divulgada por especialistas, em regiões de conflito, a probabilidade de perdas simultâneas e de grande escala aumenta, o que sobrecarrega a capacidade financeira das seguradoras.

Seguradoras sob pressão: por que as coberturas são canceladas?

O cancelamento das coberturas de seguro marítimo é uma resposta direta ao aumento abrupto do risco. Segundo Denis Teixeira, vice-presidente sênior de Transportes e Logística da Alper Seguros, os seguradores passam a enxergar risco de perdas severas e correlacionadas, como ataque a casco, carga, tripulação, poluição, bloqueio de rota e retenção de embarcações, quase ao mesmo tempo.

Tatiana Algodoal, sócia da área consultiva da Schalch Sociedade de Advogados, especialista em seguros e resseguros, explica que os ataques transformam um risco antes considerado apenas “potencial” em algo “concreto, atual e de elevada severidade”. A combinação de fatores como a velocidade da escalada, a relevância sistêmica da rota e as ameaças diretas à navegação tornam a situação particularmente grave.

Cancelamento de seguro: quebra de contrato?

Apesar do impacto financeiro, o cancelamento do seguro, desde que respeitadas as regras contratuais, geralmente não é considerado descumprimento de contrato. As apólices marítimas costumam incluir cláusulas padrão internacionais, como a Institute War Cancellation Clause, que autorizam o cancelamento da cobertura de guerra mediante aviso prévio.

Esse aviso prévio, normalmente de 7 dias ou 72 horas, deve ser respeitado. Embarques realizados antes da eficácia do aviso permanecem cobertos, mas aqueles posteriores à data do cancelamento ficam sem a cobertura para riscos de guerra, conforme explica Algodoal.

Impacto no Brasil: o efeito cascata no seu bolso

Mesmo distante geograficamente do conflito, o Brasil não fica imune. O impacto chega de forma indireta, via aumento de custos. Especialistas apontam que esse movimento tende a se refletir, primeiramente, em combustíveis mais caros. Nesta terça-feira, os índices de referência do petróleo bruto do Oriente Médio atingiram recordes históricos, tornando-se os mais caros do mundo.

O preço do petróleo Dubai foi avaliado em um recorde de US$ 157,66 (R$ 824,56) para cargas de carregamento de maio, segundo a S&P Global Platts, superando o recorde histórico do barril Brent de 2008. Rodrigo Protasio, CEO da Gallagher Retail no Brasil, destaca que a volatilidade financeira e a pressão sobre os preços do petróleo geram um efeito cascata.

Conflitos prolongados pressionam o preço do petróleo e ampliam os custos de energia, alimentando a inflação global. Isso impacta o setor de seguros ao elevar custos de sinistros e valores segurados. Quando o prêmio do seguro sobe, o custo total do transporte marítimo também aumenta, e esse repasse acaba entrando no custo Brasil e, em muitos casos, no preço final ao consumidor, como explica Teixeira.

Cadeia produtiva e bens essenciais mais caros

Esse encarecimento se propaga pela cadeia produtiva, afetando o custo de produção e distribuição de bens essenciais. Alimentos, por exemplo, tornam-se mais caros devido ao aumento do preço de fertilizantes, energia e frete. Produtos importados também sofrem reajustes decorrentes do maior custo logístico e da menor previsibilidade das entregas.

O efeito não se limita a um setor específico, mas alcança diferentes segmentos do consumo cotidiano. Leonardo Coelho, CEO para o Brasil na Aon, ressalta que as implicações para energia e cadeias de suprimentos dependerão da duração e escalada do conflito. Qualquer interrupção prolongada pode afetar o suprimento, pressionar os preços e criar efeitos subsequentes nas cadeias de suprimentos globais.