A inteligência artificial (IA) é a nova ameaça ao mercado de trabalho? Entenda o que os dados históricos e economistas revelam sobre o futuro dos empregos em meio à revolução tecnológica.
O pessimismo em relação às perspectivas de emprego de longo prazo atinge níveis recordes nos Estados Unidos, com a inteligência artificial sendo apontada como principal causa. Uma pesquisa aponta que a pessoa média acredita ter 22% de chance de perder o emprego nos próximos cinco anos.
Quase um em cada cinco trabalhadores americanos expressa preocupação com a possibilidade de ser substituído pela IA ou automação. A ansiedade não se limita à população geral, com líderes de empresas de IA, como Dario Amodei e Bill Gates, também alertando para um cenário de desemprego significativo.
No entanto, economistas tendem a ser menos alarmistas, rejeitando a ideia de uma quantidade fixa de trabalho. Eles argumentam que, historicamente, a tecnologia desloca trabalhadores de algumas áreas, mas ao mesmo tempo, enriquece outros, gerando demanda e novos empregos em outros setores. Essa visão é reforçada pelo fato de que o mercado de trabalho global, incluindo o dos EUA, ainda não demonstra sinais de colapso, com taxas de desemprego baixas e crescimento em setores expostos à IA, conforme aponta a The Economist.
A história das revoluções tecnológicas e a difusão lenta da inovação
A disseminação de novas tecnologias sempre ocorreu de forma gradual ao longo da história. Robert Gordon, da Northwestern University, observou que, desde 1300, o crescimento do PIB per capita nas economias mais avançadas raramente excedeu 2,5% ao ano. Esse ritmo lento de adoção tecnológica também implicava um ritmo igualmente lento na destruição de empregos.
Um exemplo claro é a agricultura. Apesar de transformações tecnológicas significativas ao longo de milênios, a participação da força de trabalho agrícola na Inglaterra diminuiu lentamente desde o século XVI. A invenção do trator moderno no início do século XX, por exemplo, levou gerações para impactar significativamente a mão de obra no campo, e não anos.
O ‘calor branco da tecnologia’ e a Revolução Industrial: lições do passado
Em meados do século XX, inovações como os primeiros computadores e contêineres marítimos levaram alguns a temerem o ‘calor branco da tecnologia’ queimando as economias ocidentais. Apesar de períodos de disrupção no emprego, que em alguns casos foram o dobro do observado hoje, essa época é frequentemente lembrada como um período de aumento salarial e expansão de oportunidades.
A Revolução Industrial britânica do século XIX, embora frequentemente retratada como disruptiva, também criou um vasto número de novos empregos. Entre 1760 e 1860, a população empregada no Reino Unido saltou de 4,5 para 12 milhões. O desemprego permaneceu modesto, e o crescimento salarial, embora lento, não foi pior do que no século anterior, refletindo a difusão gradual das inovações.
Segundo a The Economist, os verdadeiros vilões da Revolução Industrial foram os políticos, através de políticas de preços e tarifas, e não as máquinas. O historiador econômico Nicholas Crafts ressalta que a Revolução Industrial não foi um modelo de aumento de produtividade às custas da participação da mão de obra na renda nacional, desmistificando a ideia de um apocalipse de empregos devido à tecnologia.
O que esperar da IA: sinais de alerta e o papel das recessões
A The Economist alerta que, embora o passado não ofereça um precedente para um desemprego em massa causado pela IA, isso não significa que seja impossível. Sinais de alerta incluiriam um forte aumento na produtividade combinado com um fraco crescimento dos salários reais nos EUA, indicando que os ganhos de produção estão fluindo mais para o capital do que para o trabalho.
Grandes perdas de empregos em múltiplos setores seriam outro indicativo preocupante. A lição final da história é que, se uma disrupção significativa estiver a caminho, ela provavelmente se manifestará durante uma recessão. Recessões ‘limpam’ a economia de empregos improdutivos, forçando empresas a se adaptarem e o capital e trabalho a migrarem para setores mais produtivos.
Historicamente, muitos empregos considerados rotineiros desapareceram durante recessões passadas. Identificar quais tipos de empregos serão mais afetados pela próxima onda de IA oferecerá uma pista crucial sobre o futuro do mercado de trabalho. Até lá, a incerteza sobre o formato exato do mundo moldado pela IA persistirá para todos, inclusive para os líderes da indústria tecnológica.