Caged: Abril registra menor saldo líquido de empregos formais desde o início do ano, indicando desaceleração gradual do mercado de trabalho.

O mercado de trabalho formal brasileiro apresentou um ritmo mais lento na criação de vagas em abril, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O saldo líquido de 85.888 postos foi significativamente inferior aos resultados de março e abril do ano anterior, levantando discussões sobre a sustentabilidade do aquecimento observado.

Apesar da desaceleração, a análise de especialistas aponta para uma acomodação do mercado de trabalho, que ainda se mantém com níveis de emprego e renda historicamente altos. Contudo, os indicadores sugerem uma perda de dinamismo, com projeções de um cenário mais restritivo ao longo do ano.

A tendência observada é de uma desaceleração lenta e gradual, refletindo um ambiente econômico com juros e preços mais elevados. A resiliência do setor de empregos, no entanto, continua sendo um ponto de atenção para a política monetária no combate à inflação.

Desaceleração Generalizada e Setores em Ajuste

O economista sênior do Inter, André Valério, destaca que os dados do Caged, em conjunto com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), indicam uma perda de dinamismo no mercado de trabalho. Ele prevê que a atividade econômica continuará perdendo força, refletindo um ambiente mais adverso com custos de crédito e inflação elevados.

Leonardo Costa, economista do ASA, ressalta que, descontada a sazonalidade, abril registrou a criação de apenas 23 mil vagas, o menor ritmo mensal desde a pandemia. A média móvel de três meses caiu para 120 mil postos por mês. Sem a sazonalidade, a desaceleração foi generalizada, com destaque para saldos negativos na indústria e no comércio.

Os setores de serviços e construção civil também apresentaram desaceleração, embora ainda tenham registrado saldos positivos. O aumento no ritmo de demissões e a desaceleração nas contratações foram fatores cruciais para esse resultado. A deterioração do mercado de trabalho é vista como lenta e gradual, com o desemprego em níveis baixos, mas sem fôlego para novas quedas.

Salário de Admissão Estável e Impacto na Renda

A análise da XP chama a atenção para a dinâmica salarial, que também mostra sinais de moderação. O salário nominal de admissão apresentou alta de 6,0% em relação ao ano anterior, mantendo a média dos três meses anteriores. Já o salário nominal de desligamento avançou 5,4% anualmente, abaixo da média de 6,5% registrada entre janeiro e março.

Em termos reais, o salário médio de admissão ficou estável em abril, enquanto o salário médio de desligamento recuou 0,8%. Essa estabilidade salarial, em um contexto de inflação, pode impactar o poder de compra e o consumo das famílias.

A XP estima que o ritmo médio de criação de empregos formais possa moderar de cerca de 110 mil por mês em 2025 para aproximadamente 90 mil por mês em 2026. A projeção para a criação líquida de empregos formais em 2026 é de 1,050 milhão de postos.

Resiliência do Emprego e Desafios para a Política Monetária

Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, avalia que o mercado de trabalho geral continua aquecido, com desemprego em mínima histórica e renda recorde. Ele aponta que a resiliência do setor é um dos principais desafios para a política monetária no combate à inflação, pois dificulta o arrefecimento da demanda.

O Bradesco também observa sinais de acomodação no segundo trimestre, após o mercado de trabalho ter sustentado o consumo no primeiro. A expectativa é que a demanda interna permaneça resiliente em 2024, impulsionada por estímulos à renda e ao crédito, mas com um ritmo de criação de vagas mais moderado.

Em resumo, os dados do Caged de abril indicam uma desaceleração gradual na criação de vagas formais. Embora o mercado de trabalho ainda demonstre robustez com baixas taxas de desemprego e renda elevada, os sinais de perda de dinamismo sugerem uma acomodação que pode se estender ao longo do ano, com implicações para a política econômica.

By Vanessa