Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, diz que a decisão de não igualar a oferta pela Warner Bros foi tomada antes, por cenários de preço, garantias pessoais e incerteza no financiamento
A saída da Netflix da disputa pela Warner Bros, anunciada em 26 de fevereiro, surpreendeu Hollywood e movimentou debates políticos e sindicais nos EUA.
Em sua primeira entrevista depois do fim da investida, o co-CEO Ted Sarandos disse que a empresa já tinha planejado vários cenários de oferta e que a decisão de não igualar a proposta adversária foi tomada com base nesses cenários.
As declarações foram prestadas à Bloomberg, e os trechos desta reportagem seguem conforme informação divulgada pela Bloomberg.
Por que a Netflix decidiu não igualar a oferta
Sarandos explicou que a Netflix tinha uma faixa muito estreita de preço na qual estaria disposta a pagar, e que o grupo já havia apresentado uma oferta considerada “última e final” quando o acordo foi fechado em 5 de dezembro.
Segundo ele, quando receberam o aviso de que havia uma proposta superior, com detalhes que incluíam garantias pessoais do comprador, “soube na hora, quando recebemos o aviso na quinta-feira de que eles tinham uma proposta superior e os detalhes daquele acordo”, e a empresa sabia exatamente como reagir.
O executivo destacou que a oferta concorrente trouxe clareza sobre financiamento e riscos, e que a Netflix não se afastou muito do ponto em que estava disposta a entrar, exceto por migrar parte do pagamento para dinheiro para acelerar o fechamento.
Riscos regulatórios e o fim da investigação do DOJ
Muito se especulou sobre pressão política e revisões regulatórias, mas Sarandos afirmou que a reunião com o Departamento de Justiça foi “muito produtiva, nada fora do comum” e que o processo regulatório seguiu uma rotina normal, envolvendo ao todo cerca de 50 órgãos reguladores ao redor do mundo.
Sobre a investigação do Departamento de Justiça dos EUA, Sarandos foi direto, dizendo que a apuração acabou, “sim, estamos liberados”.
Ele também observou que parte da narrativa de resistência política foi amplificada pela cobertura, mas que, na prática, o DOJ estava “seguindo o manual” e agiu com diligência, e que o acordo seria aprovado pelo Departamento de Justiça, não pelo Senado.
Impacto para Hollywood e críticas à proposta concorrente
Sarandos criticou o plano financeiro da concorrente, destacando que a Paramount Skydance está tomando emprestados dezenas de bilhões de dólares e que a dívida contratada obrigaria a cortes relevantes, “Isso significa menos produção, menos gente trabalhando”, afirmou, citando expectativa de cortes de mais de US$ 16 bilhões relatados ao mercado.
Ele disse que a proposta rival deu garantias pessoais incomuns em um negócio de US$ 111 bilhões e que, ao tirar outras questões da mesa e aumentar o preço, deixou claro por que a Netflix optou por não igualar.
O anúncio da oferta da Netflix havia gerado reações de sindicatos, políticos e figuras da indústria, em parte por preocupações sobre o futuro das exibições em sala, mas Sarandos afirmou que o processo abriu diálogo com exibidores e que a Netflix já encontrou formas criativas de levar mais produções para as telonas.
O futuro da Netflix, o uso dos US$ 2,8 bilhões e lições da operação
Sobre o valor recebido no rompimento do acordo, US$ 2,8 bilhões, Sarandos foi categórico ao dizer que a Netflix vai “continuar investindo no negócio” e que a empresa é “construtora, não compradora”.
Ele também ressaltou alinhamento na liderança, afirmando que ele e o co-CEO Greg Peters estavam totalmente alinhados desde o começo, e que Reed Hastings, apesar de não ser grande fã de fusões, apoiou o negócio desde o início.
Ao explicar o teto de preço, Sarandos mencionou que acreditava nos pontos positivos do negócio até “US$ 27,75 por ação”, e que a janela de sete dias para equalizar a oferta foi estabelecida para eliminar incerteza no mercado e forçar uma data firme para votação dos acionistas.
Questionado sobre possíveis futuras aquisições, ele considerou improvável que a Netflix tente comprar outro estúdio nos próximos seis a 12 meses, e enfatizou que a empresa seguirá investindo em conteúdo e em experiências para o público.
Palavras finais sobre reputação, política e competição
Sarandos rejeitou narrativas de que a Netflix armou uma estratégia para lucrar com a disputa, dizendo que “existem maneiras mais fáceis de ganhar US$ 2,8 bilhões” e que a empresa esteve profundamente envolvida no processo regulatório global.
Ele disse também que o episódio não deve aumentar o escrutínio à Netflix, porque a audiência do governo passou a conhecer melhor o trabalho da empresa, e defendeu incentivos fiscais federais para aumentar a competitividade dos EUA em produção.
Por fim, Sarandos afirmou que, apesar dos ruídos e da intensidade do processo, a Netflix mantém confiança no seu futuro, e que a experiência serviu para reforçar a disciplina no uso do capital e as prioridades da empresa.