O “fantasma” de Wilson Witzel e o cálculo de risco na política mineira explicam a ausência de Cleitinho Azevedo na corrida pelo governo.
Até poucos meses atrás, Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) era visto como o nome forte para disputar o governo de Minas Gerais. Sua popularidade nas redes sociais e a liderança em pesquisas de intenção de voto o posicionavam como um outsider promissor, um perfil que já marcou outras eleições recentes no Brasil.
No entanto, Cleitinho acabou ficando fora da disputa. Especialistas ouvidos pelo programa Mapa de Risco, do InfoMoney, sugerem que a decisão não se resume a disputas partidárias internas. Um fator crucial parece ser o receio de repetir um cenário de dificuldade governamental, similar ao vivenciado pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.
Essa análise, que envolve a avaliação dos riscos de governar sem uma base política consolidada, foi compartilhada por cientistas políticos. O exemplo de Witzel, que obteve uma vitória expressiva mas enfrentou dificuldades de sustentação durante o mandato, parece servir de alerta. Conforme informação divulgada pelo InfoMoney, existe um temor de que Cleitinho possa reproduzir esse cenário, chegando ao governo sem o apoio político necessário para administrar o estado efetivamente.
O legado de Witzel como lição para candidatos outsiders
O cientista político Jorge Chaloub, professor da UFRJ, destaca que o caso de Wilson Witzel se tornou um “fantasma” que assombra candidatos que apostam quase exclusivamente na popularidade. Ele explica que transformar capital eleitoral em capacidade de governar é um desafio complexo, especialmente em um cargo de grande prestígio, mas também de riscos elevados.
“O Witzel teve uma vitória meteórica. Por não conseguir articular uma base de governo, perdeu rapidamente o apoio”, afirma Chaloub. Segundo ele, a falta de articulação política de Witzel, apesar de sua popularidade inicial, serve como um alerta para outros políticos. O receio é que a mesma situação se repita com Cleitinho, que poderia mobilizar o eleitorado, mas não ter sustentação para governar.
Perda de timing e falta de previsibilidade minam candidaturas
Paulo Gama, head de Análise Política da XP, aponta que Cleitinho Azevedo tinha potencial eleitoral, mas pode ter “perdido o timing” para converter esse capital em uma candidatura viável. Ele sugere que, ao ter a intenção de voto, Cleitinho poderia ter buscado se apresentar à política institucional de forma mais confiável.
“Ele preferiu um caminho distinto e a gente viu outras candidaturas se articulando e aparecendo”, observa Gama. O analista ressalta que o senador nunca conseguiu transmitir **previsibilidade** aos partidos, gerando dúvidas sobre seu alinhamento político, especialmente em relação a uma oposição ao governo federal. A falta de confiança da política institucional em Cleitinho, apesar do potencial de voto, teria sido um fator determinante.
A construção da carreira política como obstáculo
A forma como Cleitinho construiu sua trajetória política também é apontada como um obstáculo. Chaloub explica que a falta de acordos partidários sólidos e a incerteza sobre a participação desses partidos no futuro governo podem ter afastado potenciais aliados. Dirigentes partidários, segundo ele, temem apoiar alguém sem a garantia de que também serão contemplados em uma eventual gestão.
Na prática, o cenário demonstra que a **popularidade**, por si só, deixou de ser suficiente para garantir uma candidatura competitiva. A necessidade de formar maiorias legislativas, administrar estados com pressão fiscal e a experiência recente com governadores eleitos como outsiders elevam a importância da **articulação política** e da construção de uma base de apoio sólida para quem almeja o comando de um estado.

