Entenda por que a América Latina tem sofrido uma onda de terremotos e catástrofes climáticas, entre o Círculo de Fogo do Pacífico, placas tectônicas, El Niño e o aquecimento global
Um terremoto de magnitude 7,6 atingiu o Panamá na sexta-feira, 9 de outubro, provocando evacuações, danos a estruturas e alertas de tsunami em áreas costeiras. No mesmo dia, o Chile decretou estado de calamidade por fortes chuvas que causaram deslizamentos e enxurradas em Las Condes e Santiago.
Em 2026, a região também registrou tremores de grande magnitude na Colômbia, em agosto, e na Venezuela, em junho, além de enchentes, incêndios e secas associadas ao fenômeno El Niño. Esses episódios reacendem o debate sobre por que a América Latina enfrenta riscos tão variados.
Nas linhas a seguir, explicamos as diferenças entre as causas dos terremotos e das catástrofes climáticas, o papel do monitoramento e o que é possível fazer para reduzir danos, conforme informação divulgada pelo Metrópoles.
Por que ocorrem tantos terremotos na região
Parte da explicação está no chamado Círculo de Fogo do Pacífico, uma faixa ao redor do oceano marcada por intensa atividade sísmica e vulcânica. Países como Chile, Peru, Equador, Colômbia e México, além de grande parte da América Central, estão expostos a essa dinâmica.
O sismólogo José Alexandre Nogueira, da USP, resume a razão geológica, dizendo, “A costa do Oceano Pacífico nas Américas do Sul e Central está localizada em uma região de intensa atividade tectônica, onde diferentes placas interagem constantemente, colidindo, afastando-se ou movendo-se lateralmente umas em relação às outras. Esses movimentos acumulam tensões nas rochas, que podem ser liberadas na forma de terremotos”.
No caso do Panamá, a dinâmica envolve as placas do Caribe, de Cocos, de Nazca e Sul-Americana, e possivelmente uma microplaca do Panamá, cuja existência ainda é debatida.
Mais abalos registrados não significam, necessariamente, aumento da atividade sísmica
Embora a percepção pública seja de que os terremotos estão aumentando, especialistas ressaltam que não há evidências claras de elevação generalizada da sismicidade na região. O aumento do número de registros se relaciona em grande parte à expansão das redes de monitoramento.
Como afirma o sismólogo do Observatório Nacional, Diogo Coelho, “Agora, com mais estações sismográficas na América Latina transmitindo dados em tempo real, como faz a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), conseguimos detectar e divulgar os eventos sísmicos regionais. Por isso, existe a impressão de uma sismicidade alta na região”.
Coelho também lembra que é complexo associar abalos em diferentes sistemas tectônicos, e que “Além disso, não temos o controle de todos os parâmetros físicos em subsuperfície para mapear todas as forças geológicas atuando e como o meio responde a esses esforços geológicos”.
Por que as catástrofes climáticas têm se intensificado
Diferente dos terremotos, muitos eventos climáticos extremos estão diretamente relacionados ao aquecimento global. O aumento da temperatura média aquece os oceanos, altera a circulação atmosférica e intensifica o ciclo da água, favorecendo chuvas intensas, secas e ondas de calor.
Um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado em maio de 2026, apontou que a América Latina e o Caribe enfrentaram, em 2025, calor recorde, secas persistentes, chuvas extremas e ciclones tropicais devastadores. O documento também destacou o recuo das geleiras, que ameaça o abastecimento de água e pode aumentar determinados riscos de inundação.
Além disso, o fenômeno El Niño e sua fase oposta, La Niña, influenciam a distribuição das chuvas e das temperaturas, e têm contribuído para secas entre junho e setembro em Guatemala, Honduras e El Salvador, com prejuízos agrícolas.
Por que um evento natural vira tragédia e como reduzir riscos
A intensidade do evento não determina sozinho o tamanho da tragédia, a qualidade das construções, a ocupação do território, a exposição da população e a capacidade de resposta das autoridades são decisivas. Em áreas sísmicas, construções sem estrutura adequada podem desabar durante um abalo.
Prevenção exige monitoramento científico, sistemas de alerta, planos de evacuação, códigos de construção e infraestrutura adequada. No campo climático, avanços permitem prever tempestades e emitir alertas, mas a antecedência e a precisão variam conforme o fenômeno.
Casos recentes em 2026 ilustram essa combinação de riscos, com enchentes e deslizamentos em Minas Gerais, no Brasil, em fevereiro, inundações no Peru em agosto, tempestades com granizo e ventos fortes no Paraguai em 3 de outubro, e incêndios de grandes proporções no Chile e na Argentina em janeiro.
Entender as causas distintas dos terremotos e das catástrofes climáticas é o primeiro passo para políticas públicas que reduzam vulnerabilidade e protejam populações, particularmente em áreas costeiras e regiões agrícolas expostas a eventos extremos.

