O mercado de ETFs de renda fixa cresceu rapidamente, impulsionado por mudanças na tributação, busca por eficiência e maior oferta de produtos, mas enfrenta desafios como juros elevados e experiência do investidor
O mercado brasileiro de ETFs vive um momento de ebulição, com a renda fixa liderando a entrada de recursos e mudando a composição dos fundos de índice disponíveis para o investidor.
O movimento reúne fatores estruturais, como mudanças na tributação de fundos exclusivos, e táticos, como maior distribuição via assessores e lançamentos de gestoras tradicionais.
Os dados e declarações que orientam esta análise foram compilados a partir de informações divulgadas pela Anbima e entrevistas com gestores da XP Asset, conforme informação divulgada pela Anbima e pela XP Asset.
O salto do tamanho da indústria e a nova cara dos ETFs
Segundo a Anbima, o patrimônio líquido total da indústria saltou de R$ 46,4 bilhões no final de 2024 para R$ 90,2 bilhões em janeiro de 2026, quase dobrando em pouco mais de um ano. Apesar do avanço, a penetração dos ETFs ainda é modesta, representando menos de 1% da indústria de fundos no Brasil, muito distante dos 35% vistos nos Estados Unidos.
Do total de 177 fundos de índice listados na Bolsa brasileira atualmente, apenas 24,2% são de renda fixa, enquanto 50% replicam índices de renda variável, dados que mostram que o crescimento da renda fixa é recente e concentra atenção do mercado.
Por que a renda fixa disparou
Gestores apontam que o avanço dos ETFs de renda fixa não é casual, ele foi catalisado por uma mudança estrutural na tributação dos fundos exclusivos, que passaram a sofrer com o come-cotas, a antecipação semestral do Imposto de Renda.
Como explica Leonardo Vasques, portfolio manager, “Quando paramos de ter fundos exclusivo sem come-cotas, começamos a ter uma massa de dinheiro procurando alguma forma de manter o perfil de risco soberano sem ter antecipação de imposto. O ETF é um dos poucos veículos que você consegue fazer isso”, ele afirma.
Além da eficiência tributária, Vasques lembra que a maior distribuição por consultores e assessores ajuda na difusão do produto, “Você começa a ter mais gente trabalhando o produto, explicando as vantagens”, completa Vasques.
Estratégia da XP Asset e visão de oportunidade
A XP Asset, que já detém cerca de 10% do mercado de ETFs em patrimônio e atende a um em cada quatro investidores da modalidade no País, adota uma estratégia de ampliação de oferta, lançando novos produtos para cobrir classes como criptoativos e NTN-Bs, e replicar o modelo das grandes casas americanas.
Danilo Gabriel, sócio e gestor, sintetiza a ambição, “O nosso apetite enquanto XP Asset é ter uma completude de grade muito parecida com o que faz a Schwab lá fora, Teremos produtos competitivos e inovadores”, afirma Danilo Gabriel.
Os gestores enxergam a atual fase como uma oportunidade geracional para capturar fluxo e educar o mercado, e projetam que em momentos de alta generalizada, “Acho que quando tivermos um humor de mercado de bull market, os ETFs serão os grandes ganhadores de volume”, projeta Danilo.
Oportunidades e barreiras que ainda existem
Embora haja espaço para crescimento, os gestores apontam limitações relevantes. A principal, segundo Gabriel, “está fora das nossas mãos”, é o patamar elevado dos juros reais no Brasil. Ele destaca que, “Quando a gente tem as Bs (NTN-Bs, títulos do Tesouro IPCA+) pagando 7%, elas se tornam vórtex de liquidez, É difícil competir”, admite.
Outra barreira é a experiência do usuário e a necessidade de educação financeira, já que muitos investidores ainda veem confusão na classificação e no informe dos produtos, o que atrapalha a adoção em massa.
No curto prazo, a combinação de vantagem tributária, maior distribuição e oferta de produtos deve seguir puxando recursos para os ETFs de renda fixa, mas a consolidação em participação exigirá queda dos juros reais e avanço na experiência do investidor.