Family Offices Repensam Estratégias: Ações Globais em Movimento e o Futuro do Dólar

Pela primeira vez desde o início do monitoramento do UBS, que acompanha escritórios de gestão de fortunas de famílias ultra-ricas (os chamados family offices), uma maioria expressiva decidiu alterar simultaneamente a forma como investem seu capital. Esta mudança representa o maior nível de intenção de alteração na alocação de ativos já registrado pela pesquisa.

O levantamento, divulgado recentemente, ouviu 307 family offices em mais de 30 países. O patrimônio médio dessas famílias é de impressionantes US$ 2,7 bilhões, o que confere grande peso às suas decisões de investimento e às tendências que elas representam no mercado financeiro global.

A confiança na moeda americana como reserva global está em jogo, com uma parcela significativa dos family offices esperando um enfraquecimento. Essa percepção, aliada a outros fatores, está impulsionando uma diversificação de portfólios sem precedentes, conforme informações divulgadas pelo UBS Global Wealth Management.

Dólar Perde Força, Euro e Franco Suíço Ganham Espaço

Um dos pilares dessa reviravolta é a percepção sobre o dólar. Nada menos que 65% dos family offices esperam que a confiança na moeda americana como reserva global se enfraqueça nos próximos 12 meses, enquanto apenas 6% preveem melhora. Essa desconfiança já se reflete nas carteiras, com 47% dos gestores declarando estar sobreexpostos ao dólar e 29% indicando que já reduziram ou estão considerando reduzir seus ativos denominados na moeda americana.

As razões para essa mudança de rota são múltiplas, combinando preocupações com o alto nível da dívida dos Estados Unidos, a crescente incerteza geopolítica e o risco de concentração cambial. Como resposta, a diversificação para outras moedas se tornou uma prioridade, com o euro e o franco suíço emergindo como as principais alternativas de investimento.

“Os family offices estão ajustando portfólios de forma gradual, diversificando entre ativos, moedas e regiões, ao mesmo tempo em que mantêm exposição a temas de longo prazo como inteligência artificial com maior seletividade”, afirmou Benjamin Cavalli, responsável pela área de clientes estratégicos do UBS Global Wealth Management. Ele ressaltou, no entanto, que os ativos norte-americanos ainda representam a maior fatia das alocações globais, com 52% do total previsto para 2026.

Inteligência Artificial e Mercados Emergentes no Radar

Apesar da revisão geral, o cenário não aponta para rupturas drásticas. Os mercados desenvolvidos continuam sendo a base dos portfólios, mas com uma inclinação crescente para ações de mercados emergentes e ativos como infraestrutura. A exposição a imóveis deve cair de 11% para 8% nas alocações, enquanto o ouro avança de 2% para 3% entre os que planejam ajustes.

No campo temático, a inteligência artificial (IA) segue como protagonista. Cerca de 65% dos family offices já possuem alguma exposição ao setor de IA, seja em infraestrutura de data centers, plataformas de software ou fabricantes de semicondutores. Mesmo com preocupações sobre avaliações elevadas, a maioria planeja manter ou aumentar sua posição nesse segmento.

O entusiasmo pela IA é ainda maior na América Latina, onde 77% dos family offices da região já estão alocados no tema, superando a média global de 65%. O Sudeste Asiático (88%) e a Ásia do Norte (74%) lideram essa tendência.

Riscos Geopolíticos e Dívidas Preocupam no Longo Prazo

Olhando para o futuro, o conflito geopolítico lidera as preocupações tanto no curto quanto no longo prazo, sendo citado por 64% dos respondentes para os próximos 12 meses. No horizonte de cinco anos, as ameaças de crise de dívida soberana e recessão global ganham força, com 56% e 50% das citações, respectivamente.

A mudança na alocação de investimentos por parte dos family offices sinaliza uma adaptação a um cenário global mais complexo e volátil. A busca por diversificação e a aposta em setores de alto crescimento como a IA indicam uma estratégia voltada para a resiliência e o potencial de retorno em meio a incertezas econômicas e geopolíticas globais.

By Vanessa