O cenário de alívio inflacionário, que contava com a contribuição dos bens industriais, começa a mudar. A pressão do petróleo, intensificada pela guerra no Oriente Médio, está elevando os custos de produção e logística, impactando diretamente os preços de uma cesta de produtos que até então era vista como um motor de desaceleração para o IPCA.

Economistas e o mercado financeiro observam com atenção essa reversão, que pode significar uma menor ajuda na queda da inflação oficial ao longo de 2026. A expectativa é de que bens industriais, que representam cerca de 23% do IPCA, deixem de ser um vetor desinflacionário e passem a contribuir positivamente para a alta de preços.

Conforme informações divulgadas pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, o choque de oferta global causado pelo conflito no Oriente Médio afetou o fornecimento de petróleo e outras matérias-primas. Essa dinâmica está alterando a trajetória de preços de bens industriais, que já mostram tendência de alta após o conflito, conforme aponta a análise de profissionais do mercado.

Bens Industriais: De Vilões a Vilarejos na Inflação?

Até então, os bens industriais vinham apresentando uma evolução tranquila nos preços, com uma correlação positiva com a desvalorização do dólar frente ao real em 2026. No entanto, dados recentes do atacado já indicam uma mudança nesse panorama. O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), que mede a variação de preços ao produtor, revelou uma reversão no quadro benigno. Um indicador específico para o setor industrial, o “core industrial”, subiu para 2,5% em abril, a maior taxa para o mês desde pelo menos 2010.

A estrategista de inflação da Warren Investimentos, Andréa Angelo, destaca que o aumento do preço do petróleo passou a pressionar de forma disseminada os índices de preços em abril, elevando custos industriais e logísticos. Ela exemplifica a disparada de embalagens plásticas, que passaram de 33% para 38% de março a abril, indicando que a pressão se origina do choque da guerra, apesar da desvalorização do dólar.

Para Andréa, os bens industriais devem encerrar o ano perto de 3,2% no IPCA. “No início do ano, achávamos que os itens industriais seriam um vetor de desinflação, mas isso se reverteu”, afirma a economista, ressaltando a mudança de perspectiva para o segmento.

Pressão se Alastra: De Higiene Pessoal a Eletroeletrônicos

O economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, observa que itens de higiene pessoal foram responsáveis por dois terços da alta dos bens industriais em abril. Essa elevação é atribuída à combinação de preços mais caros de matérias-primas e fretes, além de uma certa resiliência do consumo, possivelmente impulsionada por medidas de estímulo como a isenção maior do Imposto de Renda. Secemski também aponta um início de ano mais pressionado em itens como aparelhos eletroeletrônicos e celulares, que embora ainda estejam no campo negativo em 12 meses, deixaram as mínimas.

O Barclays revisou sua projeção para o avanço anual dos itens industriais no IPCA de 2,9% para 3,8%, ante 5% estimados para o índice cheio. Essa revisão reflete a expectativa de um fôlego maior desta parte da inflação na segunda metade do ano, indicando que a tendência altista para os produtos industrializados deve persistir.

China e Algodão: Outros Vetores de Inflação Industrial

O economista da gestora Quantitas, João Fernandes, aponta que, além da alta do petróleo, o comportamento da economia chinesa também contribui para a aceleração recente nos bens industriais. A China, que vinha de uma desaceleração econômica e inflação baixa, agora se vê mais exposta à importação de petróleo, o que eleva sua inflação geral e encarece os itens exportados. Esses produtos chegam a preços maiores nos emergentes, elevando a inflação local.

Fernandes também alerta para a expectativa de que a inflação de itens de vestuário comece a sentir o efeito altista do preço do algodão, que ainda não foi totalmente repassado. Com o petróleo elevando o custo do poliéster, o algodão, como substituto, tem sua demanda aumentada, impulsionando seus preços. Essa dinâmica, combinada com a pressão do petróleo, sinaliza que a influência desinflacionária dos bens industriais sobre o IPCA está cada vez menor.

By Vanessa