Trump avalia ataque ao Irã como demonstração inicial, e deixa em aberto uma ofensiva maior nos meses seguintes caso Teerã não ceda às exigências
O presidente Donald Trump disse a assessores que considera realizar um ataque ao Irã de caráter direcionado nos próximos dias, com o objetivo de pressionar a liderança iraniana a abandonar capacidades nucleares, segundo relatos de autoridades americanas.
Se uma ação limitada não produzir o resultado desejado, Trump disse a assessores que estudaria uma ofensiva muito maior nos meses seguintes, incluindo a possibilidade de retirar do poder o aiatolá Ali Khamenei, conforme apurado junto a fontes que acompanharam as deliberações internas.
Negociadores dos Estados Unidos e do Irã devem se encontrar em Genebra em nova tentativa de evitar o conflito, ao mesmo tempo em que Washington posicionou forças na região e debate opções militares, conforme informações divulgadas por autoridades americanas ouvidas pela reportagem.
O que está sendo considerado em Washington
Entre os alvos em análise para um eventual ataque ao Irã estão o quartel-general da Guarda Revolucionária, instalações nucleares e estruturas vinculadas ao programa de mísseis balísticos do país. Assessores afirmam que nenhuma decisão final foi tomada, mas a inclinação presidencial por uma demonstração militar cresceu diante do impasse diplomático.
Na Casa Branca, Trump discutiu planos em reunião que reuniu o vice-presidente J. D. Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o general Dan Caine, o diretor da CIA John Ratcliffe, e a chefe de gabinete Susie Wiles. Autoridades consultadas disseram que a reunião incluiu avaliações operacionais e de inteligência.
Também foi relatado que, na prática, dois grupos de porta-aviões e dezenas de caças, bombardeiros e aviões-tanque estão posicionados a uma distância de ataque do Irã, o que eleva a pressão sobre Teerã enquanto as negociações prosseguem.
Alternativas analisadas e a proposta da AIEA
Uma proposta em debate, apresentada pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, permitiria ao Irã um programa de enriquecimento muito limitado para fins de pesquisa e produção de isótopos médicos. A ideia tenta criar uma saída diplomática que ambas as partes possam vender como vitória.
O plano permitiria ao Irã afirmar que continua a enriquecer urânio, enquanto os Estados Unidos poderiam exigir o fechamento de instalações que possibilitariam a construção de uma arma. Ainda assim, não está claro se Teerã aceitaria reduzir um programa nuclear de escala industrial, em que investiu bilhões de dólares.
Autoridades na administração Trump também ficaram em dúvida sobre aceitar qualquer enriquecimento, mesmo restrito, diante da diretriz interna, citada por um enviado, que busca um resultado de “enriquecimento zero”.
Limites das opções militares e riscos
Dentro do governo americano há ceticismo sobre a eficácia de ataques aéreos isolados para alcançar a mudança de regime. O general Caine ressaltou que o Irã é um alvo muito mais difícil do que operações recentes citadas como modelo, e não deu garantias de sucesso.
Planos anteriores incluíam incursões de forças especiais para atacar instalações nucleares profundamente enterradas, mas autoridades disseram que, por ora, essas operações foram deixadas de lado, devido aos riscos elevados e à necessidade de permanência em solo por períodos prolongados.
Autoridades militares também alertaram para o impacto que uma guerra prolongada, ou a preparação contínua para esse conflito, teria sobre a prontidão das forças, incluindo navios da Marinha, sistemas Patriot escassos, e aeronaves de transporte e vigilância sobrecarregadas.
Contexto diplomático e declarações públicas
Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o país não está disposto a abrir mão do que considera seu “direito” de produzir combustíveis nucleares sob o Tratado de Não Proliferação Nuclear. A posição iraniana complica qualquer solução que permita continuidade de atividades de enriquecimento.
A Casa Branca se recusou a comentar o processo decisório. A porta-voz Anna Kelly declarou, “A mídia pode continuar especulando sobre o que o presidente está pensando o quanto quiser, mas apenas o presidente Trump sabe o que pode ou não fazer”.
Por fim, um enviado do governo afirmou que a “diretriz clara” é que o único resultado aceitável para um acordo seria que o Irã adotasse o “enriquecimento zero” de material nuclear, o que amplia a distância entre as posições, e torna um eventual ataque ao Irã uma opção considerada por Trump caso a diplomacia fracasse.