O UBS elevou o tom sobre os riscos no mercado de crédito privado, ao apontar um catalisador técnico capaz de provocar uma onda de inadimplências entre empresas endividadas, especialmente em software.
Analistas do banco alertam que, em um cenário adverso ligado à inteligência artificial, as taxas de default podem subir de forma acentuada, pressionando BDCs, gestores e o próprio mercado de dívida alavancada.
As conclusões constam em relatório divulgado pelos estrategistas liderados por Matthew Mish, com implicações diretas para a crise de crédito nos EUA, conforme relatório do UBS.
O que o UBS projetou
Os estrategistas do UBS afirmam que as taxas de default no crédito privado podem subir para até 15%, dois pontos percentuais acima da projeção feita há menos de um mês, caso a inteligência artificial provoque uma ruptura, rápida e severa, entre empresas tomadoras de crédito.
O relatório destaca que a inadimplência no crédito privado atualmente está entre 3% e 5%, e que sinais de estresse, como o aumento do uso de juros pagos em espécie, PIK, estão próximos dos níveis mais altos desde o período pós-pandemia.
Além disso, os estrategistas do UBS veem risco maior em empréstimos alavancados e títulos de alto rendimento nos EUA, com projeções de até 6% e 10%, respectivamente, em um cenário adverso, acima das estimativas anteriores de até 4% e 8%.
Por que os gestores ficam expostos
Os credores diretos ganharam importância no financiamento de empresas de software nos últimos anos, e agora aparentam estar expostos ao impacto da IA.
Algumas estimativas indicam que essas gestoras têm cerca de 40% dos empréstimos a empresas apoiadas por private equity concentrados no setor de software, o que cria um ponto de vulnerabilidade comum caso a demanda por serviços de software caia ou modelos de negócio sejam rapidamente substituídos pela IA.
O alerta ganhou força depois da decisão da Blue Owl Capital de fechar permanentemente janelas de resgate de um de seus fundos e vender ativos, movimento que provocou uma queda de US$ 2,4 bilhões no valor de mercado da empresa, e pressionou ações de Ares, Blackstone e Apollo.
Venda de ativos, BDCs e alavancagem
BDCs, credores diretos com ações em bolsa, enfrentam pressão para devolver capital a investidores. A New Mountain Finance Corp. anunciou a venda de quase US$ 500 milhões em ativos com desconto de 94 centavos por dólar, medida que ampliou a cautela do mercado.
Analistas do Citigroup alertam que uma alternativa para as BDCs levantarem caixa é vender ativos para estruturas de CLOs, movimento que pode multiplicar a alavancagem em até dez vezes e, assim, mascarar riscos.
Mesmo com sinais de estresse, há vozes que consideram o pessimismo exagerado, apontando fatores contrários, como o renascimento da atividade de fusões e aquisições e o aumento de capital de seguradoras para mercados privados.
Reações do mercado e avisos de investidores
Investidores e gestores proeminentes já soaram alertas. Boaz Weinstein, da Saba Capital, disse que há risco de “as rodas se soltarem” no crédito privado, em evento em Miami Beach.
Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, criticou “coisas estúpidas” feitas por alguns credores e comparou práticas atuais com o período pré-crise, reforçando a preocupação com a crise de crédito nos EUA.
Dan Loeb, da Third Point, reconheceu que muitos empréstimos serão afetados, mas afirmou, “Não há um cenário de corrida bancária, porque há correspondência entre ativos e passivos.”
Bob Michele, da JPMorgan Asset Management, resumiu a tensão: “O que preocupa a todos é que ainda não houve um ajuste no crédito privado”, e acrescentou que “Uma recessão é o ajuste final.”
O principal fator de atenção segue sendo o impacto potencial da IA no setor de software, que pode ampliar a pressão sobre o crédito privado e contagiar mercados de dívida, elevando os riscos para uma possível crise de crédito nos EUA.