UBS corta recomendação de ações brasileiras para neutra e aponta convergência de riscos
O banco suíço UBS revisou sua recomendação para as ações brasileiras, rebaixando-as de “atrativas” para “neutra”. A decisão reflete uma mudança no balanço de risco-retorno, embora a visão geral para mercados emergentes permaneça positiva.
A reprecificação dos ativos, o ciclo de afrouxamento monetário, fortes entradas de capital estrangeiro e um cenário macroeconômico resiliente já impulsionaram o desempenho do Ibovespa desde meados do ano passado. Contudo, o UBS identificou três fatores adversos que alteram essa perspectiva.
Esses fatores incluem o aumento da incerteza política com as eleições, um ciclo de corte de juros mais curto e menos intenso pelo Banco Central, e a aceleração do afrouxamento fiscal no período pré-eleitoral. Conforme informação divulgada pelo banco, essas dinâmicas devem equilibrar os riscos e retornos até a eleição de outubro.
Incerteza política e eleições em foco
O UBS destaca que a eleição presidencial brasileira, marcada para outubro, tornou-se um fator dominante no mercado de curto prazo. Embora a volatilidade das ações brasileiras tenha se mantido moderada em comparação com períodos anteriores, os recentes acontecimentos trouxeram as eleições para o centro das atenções do mercado.
Historicamente, a volatilidade implícita das ações brasileiras tende a aumentar antes das eleições, com desempenho instável. O banco espera que essa dinâmica se intensifique à medida que outubro se aproxima, com os desdobramentos políticos tornando-se cada vez mais importantes para os investidores.
A direção política percebida do principal candidato é vista como o verdadeiro catalisador para o desempenho do mercado. Ciclos passados demonstraram que os mercados reagem rapidamente a mudanças no posicionamento dos candidatos e às previsões políticas.
Ciclo de juros mais curto e inflação preocupante
O impulso da política monetária está diminuindo, segundo o UBS. O primeiro corte de juros ocorreu em março, e as ações já haviam se valorizado em antecipação a esse ciclo. O banco acredita que grande parte do potencial de alta já foi realizado.
Uma preocupação adicional é o aumento da inflação, exacerbado pelos altos preços da energia. A recente alta do petróleo, em meio a conflitos internacionais, beneficia exportadores de energia, mas também alimenta a inflação, complicando a trajetória de cortes de juros do Banco Central.
O mercado agora espera menos de 50 pontos-base de cortes na taxa Selic até outubro. A política monetária, portanto, permanece direcionalmente favorável, mas o vento a favor é significativamente menos intenso do que antes.
Aceleração do afrouxamento fiscal pré-eleitoral
O terceiro fator de atenção é a aceleração do afrouxamento fiscal no período pré-eleitoral. Essa tendência aumenta as preocupações sobre a trajetória da dívida brasileira e contribui para a incerteza macroeconômica.
Um real mais fraco aumenta o prêmio de risco sobre os ativos locais e pode rapidamente diminuir o apetite dos investidores. Historicamente, o Brasil tem demonstrado alta sensibilidade ao sentimento de risco global e à dinâmica das taxas de juros dos EUA.
Os fluxos de capital estrangeiro recentes, portanto, tornam-se vulneráveis a uma reversão em um ambiente de aversão ao risco, o que sustenta a visão neutra para as ações brasileiras no momento.
Fundamentos estruturais permanecem positivos
Apesar do rebaixamento, o UBS ressalta que os fundamentos do Brasil continuam positivos. As avaliações das ações permanecem razoáveis, com o índice P/L para os próximos 12 meses próximo à média de sua faixa de 10 anos.
Os lucros superaram os preços nos últimos meses, e a variação trimestral do lucro por ação no Brasil está entre as mais altas nos mercados emergentes. Isso é sustentado pela exposição a commodities e um índice com baixa exposição ao setor de tecnologia.
Além disso, o Brasil se destaca como líder estrutural em minerais críticos, terras raras e infraestrutura, setores em alta demanda global. O país também oferece diversificação com baixa exposição ao setor de tecnologia, proporcionando equilíbrio setorial e fatores de ganhos diferenciados.
Os principais catalisadores a serem observados são o resultado das eleições e a trajetória do ciclo de afrouxamento monetário. Uma clara vantagem para um candidato favorável ao mercado ou perspectivas renovadas para um afrouxamento monetário mais profundo poderiam levar o UBS a reavaliar sua perspectiva.