A economia do Catar, antes próspera graças ao gás natural, enfrenta uma crise sem precedentes devido à guerra no Irã. O fechamento do Estreito de Ormuz, rota vital para suas exportações, causa perdas bilionárias e afeta todos os setores.
O Catar, uma nação desértica que se transformou em uma das mais ricas do planeta graças ao gás natural, encontra-se em uma situação fiscal extremamente delicada. Por décadas, o país construiu uma infraestrutura robusta para exportar gás natural liquefeito (GNL) para a Ásia e Europa, utilizando o estratégico Estreito de Ormuz. Mais de 60% da receita catariana provém dessas exportações, que financiaram uma metrópole moderna, um sistema de metrô avançado, a Copa do Mundo mais cara da história e um fundo soberano de US$ 600 bilhões.
Contudo, o conflito com o Irã fechou subitamente as portas do Catar para o mundo. O Estreito de Ormuz, essencial para o escoamento do GNL e para a importação de bens essenciais, permanece bloqueado há mais de dois meses. Essa paralisação comercial, aliada aos temores de instabilidade regional, prejudicou severamente o turismo e a confiança empresarial, mergulhando o país em uma crise econômica inesperada.
As consequências são visíveis em toda a península. O principal centro industrial de gás, Ras Laffan, está fechado, com guindastes paralisados e estradas bloqueadas. Hotéis e boutiques em Doha operam em um silêncio notável. As previsões de crescimento econômico do Catar foram drasticamente reduzidas, e o país enfrenta um futuro incerto. Conforme informações divulgadas pelo The New York Times, a situação fiscal do Catar tornou-se rapidamente muito desafiadora, impactando diretamente os pilares de sua prosperidade.
O Gigante do Gás Natural em Ponto Morto
A transformação econômica do Catar teve início nos anos 1990, com um investimento audacioso na liquefação do gás natural do Campo Norte, a maior reserva do mundo. Essa tecnologia permitiu ao país contornar gasodutos regionais e enviar gás para qualquer parte do globo. A primeira exportação massiva para o Japão em 1996 marcou o nascimento de uma potência energética, com a capacidade de produção saltando para 77 milhões de toneladas em 2010, período em que o Catar liderou o ranking de países mais ricos por renda per capita.
A cidade industrial de Ras Laffan, com mais de 259 quilômetros quadrados de instalações de processamento e liquefação, e as extensas plantas industriais ao longo da costa, que produzem amônia e fertilizantes, eram símbolos do crescimento exponencial do país, que registrou uma média anual de 13% de crescimento entre as décadas de 1990 e 2010. Esse boom econômico foi impulsionado por um grande fluxo de trabalhadores estrangeiros, que hoje compõem cerca de 90% da população de 3,2 milhões de habitantes.
Em 2019, o Catar anunciou planos ambiciosos para expandir sua capacidade de produção de GNL para 126 milhões de toneladas anuais até 2027, um dos maiores projetos de energia já planejados. No entanto, o conflito e o consequente bloqueio do Estreito de Ormuz paralisaram abruptamente esses planos. Ao contrário de vizinhos com oleodutos alternativos, o Catar está geograficamente isolado, tornando suas exportações de gás extremamente vulneráveis.
Impacto Direto e Danos Significativos
Em menos de 24 horas após o início do bloqueio iraniano, a QatarEnergy, gigante estatal de energia, comunicou a impossibilidade de honrar seus contratos. Duas semanas depois, mísseis e drones iranianos atingiram a usina de Ras Laffan, danificando equipamentos cruciais e reduzindo a capacidade produtiva do país em 17%. Segundo estimativas, o Catar já perdeu bilhões de dólares desde o início da guerra, com perdas diárias na casa das centenas de milhões.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma contração de 8,6% na economia catariana para este ano. Pierre-Olivier Gourinchas, economista-chefe do FMI, destacou que, para países como o Catar, cada dia de fechamento do estreito torna as perspectivas ainda mais sombrias. A guerra também expôs outra vulnerabilidade: a tentativa do Catar de se tornar um destino turístico e centro financeiro internacional foi abalada por alertas de viagem e o temor de instabilidade regional, impactando o turismo que o país buscava diversificar.
Diversificação em Risco e Perspectivas Incertas
O Catar investiu significativamente em turismo e negócios, eliminando barreiras para empresas estrangeiras e promovendo eventos internacionais. No entanto, desde o início da guerra, o número de visitantes internacionais despencou. O Conselho Mundial de Viagens e Turismo estimou que o Oriente Médio perde US$ 600 milhões por dia em receitas turísticas. A mudança de humor é palpável nos mercados tradicionais e em atrações turísticas, que registram um número drasticamente menor de visitantes.
A estratégia de diversificação do Catar, que depende de capital estrangeiro, mão de obra expatriada e, acima de tudo, da percepção de estabilidade, foi severamente comprometida. Imagens de alertas de ataque aéreo e de Ras Laffan sob fogo, transmitidas mundialmente, são incompatíveis com essa percepção de segurança, afetando tanto os negócios de hidrocarbonetos quanto os de pós-hidrocarbonetos, conforme aponta um relatório de Frédèric Schneider, pesquisador sênior do Conselho do Oriente Médio para Assuntos Globais.
Apesar da crise, o governo catariano trabalha para projetar estabilidade e proteger a população. A necessidade de importar 90% dos alimentos forçou uma reestruturação das cadeias de suprimentos, com produtos sendo transportados por frete aéreo ou por caminhão, a custos mais elevados. Subsídios governamentais agressivos têm mitigado o impacto inflacionário, mantendo os preços de bens essenciais relativamente estáveis. Mesmo com os desafios, os vastos recursos financeiros do Catar e seus consideráveis ativos fiscais e externos acumulados, conforme destacado pela S&P Global Ratings, podem permitir ao país continuar pagando salários e mantendo serviços essenciais. No entanto, a duração do fechamento do estreito determinará a extensão do rombo fiscal e o futuro da economia catariana.